Recém-eleita pela revista Norte Americana Advertising Age a melhor agência do mundo, a Africa não para de crescer – e de se renovar. Em tempos de trabalho colaborativo, o time de Nizan Guanaes sabe que o uso inteligente e criativo do espaço é tudo.

No saguão de entrada da agência Africa, em São Paulo, Pierre Verger faz a ponte entre continentes. Uma série de imagens realizada pelo fotógrafo e etnógrafo franco-brasileiro entre os anos 30 e 50 estampa as paredes do lugar. Investigador da diáspora africana nas Américas, Verger está ali porque talvez tenha sido quem melhor soube conectar a Bahia natal do sócio-fundador da agência Nizan Guanaes (e dos sócios Sergio Gordilho e Olivia Machado) ao dia a dia de lugares como Togo, Benin e Congo.

A decoração, assinada por Sig Bergamin, tem papéis de parede de cores fortes, vibrantes, e motivos que remetem a uma releitura pop do continente negro. Basta seguir explorando salas e corredores para ver que esse tom prevalece também no mobiliário, caso da poltrona Shadowy, criada pelo designer holandês Torde Bontje. Para Sergio Gordilho, 43 anos, que além de sócio responde pela direção geral de criação da agência, o escritório está, hoje, vivendo o fim de seu segundo ciclo arquitetônico e decorativo. “No primeiro, quando inauguramos a agência, nossa ideia era dialogar com uma África de raiz, visceral, com o uso de muita madeira escura, algo selvagem”, diz. “No projeto atual, investimos no colorido, fibras sintéticas no lugar da palha, um tipo de olhar europeu sobre a cultura africana. Em breve, tudo deve mudar de novo”, conta.

A agência, cuja seletíssima cartela de clientes conta com empresas como Itaú, Mitsubishi, Vivo, Budweiser e Walmart, existe há 11 anos e optou por uma arquitetura de negócios difícil de encontrar no mercado: ser uma empresa global feita à mão. Cada cliente tem equipes exclusivas, assim como salas próprias dentro da agência e a proximidade constante dos sócios. Recentemente, foi eleita pela revista norte-americana Advertising Age agência internacional do ano. “Esse prêmio foi um divisor de águas”, diz Nizan Guanaes, 55. “Todas as agências do mundo esperam sair nessa publicação. Conseguimos afirmar ainda mais nosso caráter de empresa diferente, exclusiva.” Na opinião de Nizan, a Africa não se parece com nenhuma outra agência do mercado. “A publicidade é uma indústria de diferenciação, mas os escritórios são todos iguais”, comenta. “Os publicitários se vestem do mesmo jeito, as agências são decoradas da mesma maneira, têm seus nomes formados quase sempre por siglas.” Nizan conta que, quando começou, não queria um escritório convencional, todo branco. A primeira coisa foi a escolha do lugar: a Faria Lima, que não era onde agências de publicidade costumavam se instalar. “Queria que estivéssemos num lugar de protagonismo”, afirma. “A publicidade é um grande negócio, precisa estar entre grandes negócios.” Então, surgiu o nome: Africa, que para Nizan alude a algo misterioso, enigmático.

O MAIS BAIANO

As fotos de Pierre Verger que se enfileiram pela agência mostram imagens feitas na África e na Bahia. Jorge Amado dizia que o fotógrafo era o mais baiano dos franceses. Chegou em Salvador em 1946, onde viveu por 50 anos, até sua morte.

TODOS OS OLHOS

Uma série de televisores cobre as paredes da sala que Nizan e sua equipe chamam de “Global Room”. Ali, as tevês ficam ligadas nos mais diversos canais e programas o tempo todo

ARTE MUTANTE

Muitas das máscaras e bustos africanos espalhados pela agência foram comprados em antiquários nova-iorquinos. No futuro, há o plano de espalhar obras contemporâneas pela casa. “Queremos ter rotatividade de quadros e esculturas, para mudar de vez em quando”, diz o sócio Sergio Gordilho.

Subindo as escadas, alcançamos a parte criativa da agência. Num canto, fica uma tabela de basquete e armários que remetem a vestiários de atletas. Mais adiante, no café, mesas e cadeiras dividem espaço com uma biblioteca repleta de revistas e alguns livros, todos relacionados ao universo da publicidade — estão lá séries como a All American Adds, da Taschen. De sua mesa, o responsável pelas estratégias digitais da agência, Eco Moliterno, 36, olha para o futuro. “Acho que cada vez mais as pessoas serão nômades no ambiente de trabalho, não terão lugares fixos”, projeta. “Porque cada hora vão estar trabalhando com alguém diferente. O trabalho colaborativo vai transformar o espaço. Áreas comuns darão o tom. Porque, hoje, as ideias não surgem mais só nas mesas. Elas brotam em qualquer lugar onde as pessoas possam se encontrar.” Eco acredita que o modelo consagrado nas agências de publicidade, o das duplas de criação, não é mais hegemônico. “É o que a gente vê na série americana Mad Men, por exemplo. As duplas tinham suas salas, ficavam isoladas para criar. Hoje, por causa da tecnologia, esse modelo não faz muito sentido, é preciso que mais pessoas sentem juntas. Antes, ter um grande anúncio na TV era o bastante. Hoje, essa big idea precisa perpassar todas as mídias, funcionar no celular, no computador, no tablet. Acho que a configuração espacial de uma agência será cada vez mais uma grande e imensa mesa coletiva.”

É o que acontece na sala de Marcio Santoro, 43, sócio e diretor de atendimento da agência. A grande mesa onde trabalha é um lugar mutante, a porta da sala fica sempre aberta; a todo momento pessoas entram, sentam, ficam ali trabalhando, trocando ideias, e saem — uma TV de plasma, na parede, fica o tempo todo ligada no canal de notícias Bloomberg. “Propaganda é um negócio que se faz em conjunto, é totalmente multidisciplinar”, diz Santoro, enquanto vê Luiz Fernando Vieira, 46, sócio e responsável pela área de mídia da agência, entrar e se instalar na outra ponta da mesa. “Para cada projeto é necessário reunir gente de mídia, de tendências, do planejamento, de pesquisa. Hoje, é impossível tratar de qualquer assunto com menos de três, quatro, cinco pessoas. Como passava grande parte do meu tempo em reuniões, pensei que minha sala pudesse ser uma grande sala de reunião.” Apesar de gostar da sala, Santoro crê que a propaganda é um negócio que se faz andando. “Uma agência é um organismo vivo. Eu ando muito. Se você me perguntar qual o lugar que mais gosto aqui, vou te dizer: os corredores.”

No novo projeto, pensado por Sergio Gordilho e pelo escritório de arquitetura School/SS99, Santoro terá mais lugares por onde andar. “Teremos mais corredores. Os corredores serão mais largos, com bancos e mesas”, diz Gordilho. “Queremos desafiar a ideia de corredores como lugares de passagem. Neste momento da Africa, o plano é que os corredores sejam locais de conversa, onde as pessoas possam sentar, trabalhar, criar, bater um papo.” Gordilho acredita que a arquitetura, num escritório, deve retratar a experiência que traduz a empresa. “Hoje, a Africa já tem uma cultura própria, identidade, reconhecimento. Nossa ideia é transformar a agência numa experiência de marca, mais ou menos como acontece no mundo da moda.” O novo projeto, explica Gordilho, será inspirado na ideia de um grande hotel. A recepção, por exemplo, vai ter ares de lobby. “Quando alguém chegar à recepção, terá toda a informação de o que é a Africa, como acontece num hotel do Philippe Starck, por exemplo. Teremos um aroma espalhado pela agência, teremos música ambiente, algo eletrônico, soft listening, com elementos e batidas africanos. Será uma coisa bastante sensorial.

VOCÊ FAZ PARTE

No café da agência, os macacos de Nelson Leirner tudo veem. A obra, de 2001, integra uma série inaugurada pelo artista paulistano nos anos 60 chamada Você faz parte — a repetição de cabeças dos símios dá lugar, no último quadrado, a um espelho. Ao lado, detalhe de um dos corredores, com banco em módulos. “No novo projeto os corredores serão espaços de troca de ideias”, diz Gordilho.

BOAS-VINDAS

As recepcionistas Jessica Cruz e Maria Alzira Lopes posam ao lado de busto da década de 40, comprado num antiquário em Nova York.

A agência deve ganhar também um grande espaço de convivência, uma área que integre todas as outras. “Como se fosse, num hotel, a área da piscina. Um lugar onde as pessoas se encontram, onde possam haver conversas, troca de ideias.”

Gordilho chama a atenção também para mudanças básicas, reflexos do tempo. “A Africa tem 11 anos. As salas dos clientes, por exemplo, foram criadas numa época em que usávamos muito papel. Elas têm armários gigantescos. Hoje, isso já não faz nenhum sentido, tudo cabe num pen-drive. Com os buracos de fiação, a mesma coisa, hoje tudo é wi-fi. É uma mudança muito grande, rápida. Vamos adaptar tudo.”

Passando pela sala da diretora de planejamento, o pôster de uma exposição de Chagall, em Paris. No corredor, o tapete vermelho dá lugar a um soalho escuro. Porta-copos com estampas de pele de girafa. Os grandes sofás de couro, na recepção. Duas gravuras, uma negra sentada, de colar, braceletes e turbante, com os seios à mostra; outra com um vestido preto e branco esvoaçante, olhar fixo, sobre um fundo desbotado. No elevador interno, todo preto, que interliga os três andares da agência, uma espécie de minuto escuro. Nas palavras de Nizan: “Acho que o design e a arquitetura dizem muito sobre as pessoas. Aqui, diz: nós somos diferentes”.

MEU REI

Nizan Guanaes na poltrona Shadowy, do designer holandês Torde Boontje. A peça é feita de aço, revestida com fios de plástico trançados, executados em Dakar, no Senegal, por artesãos locais.

MALUCOS NO PODER

“Tenho uma admiração profunda pelo Steve Jobs porque ele era maluco. É uma espécie de Thomas Edison, um maluco businessman. Gosto da ideia de ter os malucos no poder”, diz Nizan Guanaes. Em sua sala, há uma foto com a clássica imagem do rosto do criador da Apple. O quadro foi presente da mulher, Donata Meirelles, com quem Nizan é casado há 12 anos. A máquina de escrever é uma Olivetti que ele carrega desde os tempos de DPZ, nos anos 80.

CEO DE SANTO

Na sala de Nizan, há imagens de Santo Antonio e reproduções do machado de Ogum — e de seus instrumentos de ferro, pendurados numa haste do mesmo metal. Na Bahia, Ogum foi sincretizado como Santo Antonio. “Eles são meus compadres, meus padroeiros, abrem os caminhos”, diz Nizan. “Prometi a Ogum que, se ele me desse um filho homem, botaria o nome dele de Antonio e foi o que fiz.” Nizan diz que, apesar de viver há muitos anos em São Paulo, não se “esqueceu de ser baiano”. “Uso branco às sextas, por exemplo. Isso não parece muito empresarial, muito CEO, mas é algo que faz parte de mim.” Sobre a mesa de Nizan, canetas dividem espaço com uma pequena foto do papa Francisco.
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