Grupo dos 8

Grupo dos 8

CO-AUTOR DO EDIFÍCIO AO FUNDO, O ITALIANO RADICADO EM LONDRES RICHARD ROBERGS FOI ACLAMADO VENCEDOR DO PRITZKER 2007. SAIBA QUEM SÃO OS OUTROS SETE LAUREADOS DO SÉCULO XXI DO MAIS IMPORTANTE PRÊMIO DA ARQUITETURA MUNDIAL.

Programada para novembro próximo em São Paulo, a sétima Bienal de Arquitetura vai homenagear dois cânones brasileiros das pranchetas: Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha. “Donos de talento indiscutível, eles inscreveram o nome do Brasil na arquitetura mundial”, crava o arquiteto Gilberto Belleza, presidente nacional do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) e organizador do evento. “Não por acaso, foram os únicos brasileiros a receber o Pritzker.” Desde que foi criado em 1979 pelo casal norte-americano Jay e Cindy Pritzker, donos da cadeia de hotéis Hyatt, o mais importante prêmio de arquitetura do mundo já contemplou baluartes como o mexicano Luis Barragán, o português Álvaro Siza, o italiano Renzo Piano e o japonês Kenzo Tange. “Nossa família adora arquitetura, pois vem de Chicago, uma cidade repleta de projetos de lendas como Frank Lloyd Wright e Mies van der Rohe”, conta Thomas Pritzker, herdeiro e atual presidente da Fundação Hyatt.

A cada ano, um júri internacional composto de profissionais, críticos e fãs do ofício se reúne para eleger o candidato de maior destaque na seara da arquitetura e do urbanismo. O vencedor é agraciado com um medalhão de bronze no peito, US$ 100 mil na conta – e mais prestígio do que já possuía. “O objetivo do Pritzker é incentivar a criatividade e o respeito ao espaço público”, explica Thomas. Tais qualidades permeiam as obras dos laureados do ano 2000 para cá, cujo perfil você confere nas próximas páginas.

Das Letras ao traço

De tanto escrever sobre arquitetura, o jornalista holandês Rem Koolhaas trocou a redação do Haggse Post pela sala de aula na Architectural Association School, em Londres. Nascido em Roterdã, em 1944, e criado na Indonésia, ele tinha pouco mais de 30 anos quando formou o OMA (Office for Metropolitan Architecture), ao lado da pintora (e sua mulher) Madelon Vriesendorp e do arquiteto Zoe Zenghelis. Em 1978, publicou Delirious New York, em que analisa – e celebra – a cidade norte-americana. Em 1995, escreveu aquele que se tornaria um clássico das prateleiras de arquitetos e designers do planeta: S, M, L, XL. Desde 1990, Koolhaas é professor no curso de design da Universidade de Harvard. “Ele é um teórico do urbanismo, e há anos desenvolve com seus alunos um projeto para estudar o futuro das cidades”, diz o arquiteto Gilberto Belleza. Agraciado com o Pritzker em 2000, Koolhaas se tornou o primeiro holandês a compor o seleto time de laureados. Polêmico, assume a influência de Salvador Dalí em seus projetos e a busca por uma arquitetura humanista. Entre os trabalhos de maior sucesso figuram a Casa da Música do Porto, em Portugal, e a Biblioteca Central de Seattle, nos Estados Unidos.

 

Trabalhos como esses arrancam elogios de gente como o arquiteto Luiz Fernando Rocco, fã do trabalho do holandês: “Gosto de sua linguagem contemporânea com bela mistura de volumes e proporções”. Ao que parece, vem mais por aí. No começo deste ano foi anunciado que Koolhaas será o responsável pelo novo Museu de Arte Contemporânea de Riga, capital da Letônia, que terá sua sede num casarão de 1905. “Ele é uma cornucópia de ideias”, resume outro admirador brasileiro, o arquiteto Paulus Magnus.

Um dos mais célebres — e arrojados — projetos do holandês é a Casa da Música, na cidade do Porto, Portugal.

Os pais da Tate

1950, Basiléia, Suíça. Ano e local do primeiro capítulo da parceria de maior sucesso no mundo da arquitetura: nascem Jacques Herzog e Pierre de Meuron. Eles estudaram na mesma escola e, com 28 anos, inauguraram escritório próprio. Em 2001, aconteceu a coroação definitiva da dupla com a conquista do Pritzker – isso apenas um ano após a conclusão da Tate Modern, em Londres, à margem sul do rio Tâmisa. O edifício, que hoje abriga a coleção de arte contemporânea mais importante do Reino Unido, foi concebido por Giles Gilbert Scott (o mesmo arquiteto das tradicionais cabines vermelhas de telefones britânicos) para ser uma central elétrica. A conversão em galeria elaborada pelos suíços respeitou o design original do prédio, custou 134 milhões de libras e levou cinco anos para ficar pronta.

 

Mas não é só em Londres, onde receberam a medalha de ouro da Associação Real dos Arquitetos Britânicos, que Herzog e de Meuron dão o que falar. Em Munique, na Alemanha, eles criaram o Allianz Arena, estádio cujas paredes externas mudam de cor. No Japão, é deles o prédio da Prada, uma das atuais atrações turísticas de Tóquio. “O grande mérito da dupla está na utilização de novos materiais, o que possibilita explorar transparências, texturas e efeito visual”, afirma Belleza. É o caso do Estádio Nacional de Pequim, ou, como foi apelidado, o Ninho de Pássaro, endereço da abertura e do encerramento da Olimpíada de 2008 – jogos em que, diz-se por aí, a supremacia norte americana será seriamente colocada em xeque pelos chineses.

 

Obras de grande impacto visual marcam o trabalho da dupla suíça. É o caso do Estádio Nacional de Pequim, na China.

Arquitetura verde

Esqueça os palácios, as pontes fantásticas, as estruturas mirabolantes para abrigar milhões de pessoas. Premiado em 2002, este australiano acidentalmente nascido na Inglaterra há 71 anos chegou onde está graças à concepção de casas econômicas totalmente adaptadas ao cenário da Austrália. As habitações se moldam de tal forma ao meio ambiente que a obra de Murcutt é reconhecida como “arquitetura verde”.

 

No ramo desde 1960, o arquiteto adota o estilo de trabalho bate-escanteio-e-vai-paraa- área-cabecear, ou seja, concebe, desenha e supervisiona todo o projeto. Radicado em Sydney, Murcutt não abre mão do uso de materiais comuns, como madeira, vidro, pedra, concreto. Porque o maior luxo dos projetos deste ícone da arquitetura australiana reside na simplicidade – vide as casas Ball-Eastaway (1980-1983), Done (1988-1991), Marie Short (1974-1975) e Simpson-Lee (1989-1994). “Os pequenos trabalhos me oferecem maior oportunidade de experimentar”, o constata. Luiz Fernando Rocco concorda: “Com materiais regionais e mão-de-obra local, Murcutt prova que é possível inovar com o simples”.

Madeira e vidro embalam a famosa casa Ball-East-away, desenhada por Murcutt na década de 1980.

O símbolo de um país

Basta mencionar o nome deste dinamarquês para que se desenhe na nossa mente a espetacular meia dúzia de conchas brancas e gigantes do Sydney Opera House, às margens da baía de Sydney, na Austrália. Por mais que o júri do Pritzker de 2003 também tenha valorizado as outras obras do laureado, como a igreja luterana em Bagsverd, na Dinamarca, não há como evitar a relação imediata de Jørn Utzon com um dos principais ícones da arquitetura moderna mundial.

 

A construção com telhado formado por um milhão de ladrilhos virou símbolo da Austrália e um dos lugares mais fotografados do planeta. Mas não foi fácil chegar lá. A maravilha inaugurada em 1973 pela Rainha Elizabeth II começou a ser erguida no fim da década de 1950. No entanto, enfrentou dificuldades técnicas para fazer valer o que estava no papel – Utzon gastou anos apenas para resolver o, digamos, detalhe de como construir um edifício tão peculiar. Problemas financeiros e desavenças em relação ao interior do prédio fizeram com que o arquiteto abandonasse a obra em 1966. O trabalho foi concluído pelo escritório Hall, Littlemore e Todd.

 

Um detalhe que não macula os méritos do dinamarquês que sopra 90 velinhas ano que vem. Nascido em Copenhague, ele trabalhou com dois influentes arquitetos escandinavos: Erik Asplund e Alvar Aalto. Depois, viajou por Europa, Estados Unidos e México. Em 1950, voltou para casa – de onde sairia mais tarde para ingressar na história da arquitetura.

 

O Sydney Opera House, às margens da baía de Sydney, na Austrália, é de longe o mais polêmico projeto de Utzon. 

Dama do inusitado

A primeira – e única – mulher a levar o Pritzker para casa desde a criação do prêmio recebeu elogios do júri não apenas pelas obras já concluídas, mas, sobretudo pela expectativa dos projetos que virão. “Embora o conjunto do trabalho seja relativamente pequeno, sua energia e idéias mostram uma grande promessa para o futuro”, resumiu Thomas Pritzker, ao anunciar a escolha do júri. A relativa escassez de obras tem razão de ser. “Durante anos ela não conseguiu viabilizar seus projetos por conta do traço extravagante, que assustava os clientes”, explica Gilberto Belleza. Bem-humorada, Zaha completa: “E ainda por cima sou mulher e iraquiana. É muito preconceito reunido, que aos poucos vai morrendo”.

 

Ainda bem que a autora de obras-primas como a Bergisel Ski Jump, em Innsbruck, na Áustria, e o edifício central da BMW, em Leipzig, na Alemanha, vem conseguindo superar os obstáculos. “A ousadia aliada à técnica estupenda é seu grande trunfo”, diz o arquiteto Paulus Magnus. “No fundo, ela é uma artista plástica genial que sabe manipular os elementos da arquitetura para criar surpresas.” Basta observar o Rosenthal Center for Contemporary Art, localizado em Cincinnati, nos Estados Unidos. Aclamado como o mais importante museu norte-americano do pósguerra, o edifício parece um quebra cabeça tridimensional composto de linhas, curvas, concreto e aço. Mais uma prova de que “inusitado” é um adjetivo leve para descrever as criações desta dama da arquitetura radicada na Inglaterra.

Perspectiva do edifício comercial Opus Tower, que foi inaugurado em 2010, em Dubai. “Inusitado”, para Zaha, é pouco.

O rebelde de Los Angeles

Faltaram palavras para o norte-americano Thom Mayne verbalizar o que sentia quando soube ser dele o Pritzker 2005. Ao conseguir articular uma frase, disse: “Não faz parte da minha natureza pensar em ser aquele que prevalece, pois passei a vida toda me enxergando como outsider”. Os jurados do prêmio justificaram a escolha ao ressaltar exatamente essa inquietude que permeia vida e obra do arquiteto: “Thom Mayne é produto dos turbulentos anos 1960 e levou para a prática profissional a atitude rebelde e o desejo ardente de transformações que caracterizavam aquela época”.

 

Aclamado por ter aberto um novo flanco para a arquitetura do século XXI, Thom estudou na Universidade do Sul da Califórnia e trabalhou primeiro com planejamento urbano antes de abrir em 1972 o Morphosis – escritório que veio ao mundo com a missão de superar os limites das formas e materiais tradicionais. Desde então, o enfant terrible concebeu projetos originais e ousados, como o Caltrans District 7 Headquarters e a Diamond Ranch High School, ambos em Los Angeles. Ou então o Hypo Alpe Adria Center, na Áustria. “Ao unir arte e tecnologia, Thom criou um estilo dinâmico que expressa e atende às necessidades de nossos dias”, resumiu Ada Louise Huxtable, membro do júri do Pritzker.

 

Sobra magnitude no Caltrans District 7  Headquarters, sede do Departamento de Transportes da Califórnia 

Fácil para todos

Uma arquitetura simples e acessível que transcende muros altos e traços vertiginosos levou Paulo Mendes da Rocha até Istambul, na Turquia, para receber o Pritzker 2006. Ele foi o segundo brasileiro a fazer história no prêmio – Oscar Niemeyer teve a mesma honra em 1988 apesar de ter dividido o prêmio com o norte-americano Gordon Bunshaft. Segundo o júri, Mendes da Rocha “devotou sua carreira à criação arquitetônica guiado pelo senso de responsabilidade em relação aos habitantes de seus projetos, assim como pela sociedade mais abrangente”. Os colegas brasileiros não economizam elogios ao mestre. “Ele é um craque”, afirma Isay Weinfeld. “Seu traço é de uma elegância perturbadora. Mesmo que ele não esteja preocupado com isso.”

 

Nascido em 1928 na cidade Porto de Vitória, no Espírito Santo, o capixaba findou por construir uma forte relação com São Paulo, onde se graduou pela Universidade Mackenzie em 1954 e vive até hoje. Com apenas três anos de formado, venceu o concurso para a construção do ginásio do Clube Atlético Paulistano, seu primeiro grande projeto. A partir daí, criou de praças públicas a residências particulares, de estádios esportivos a igrejas, de museus de arte a jardins-de-infância. Considerado o mais célebre representante da arquitetura moderna paulista, Mendes da Rocha também é autor do pórtico da Praça do Patriarca, do Museu da Língua Portuguesa e da reforma da Pinacoteca do Estado, todos em São Paulo.

 

A intervenção na Pinacoteca do Estado, em São Paulo, também valeu ao arquiteto o prêmio Mies van der Rohe 

Quarteto fantástico

Quatro obras em quatro décadas mostram o peso e a consistência do trabalho do italiano Richard Rogers, laureado do Pritzker deste ano. São elas: Centro George Pompidou, em Paris (1977), parceria com Renzo Piano; edifício Lloyd´s (1986) e Millenium Dome (1999), ambos em Londres; e o terminal T4 do aeroporto de Barajas, em Madri (2006). Juntos, esses projetos formam um quarteto de ícones da arquitetura mundial pelo aspecto inovador e pela capacidade de adaptação às necessidades de seus frequentadores.

 

Por esses e outros, Rogers, nascido em Florença em 1933, já levou todos os prêmios importantes da área. Formado em 1962, estudou na Architectural Association de Londres e na Universidade de Yale, nos Estados Unidos. Lá, conheceu Norman Foster (vencedor do Pritzker 1999), com quem mais tarde abriu na capital inglesa o escritório Team 4. Logo Rogers se consolidou como um dos expoentes do movimento high-tech. “Ele levou ao extremo a faceta industrial da arquitetura”, elogia Belleza. Hoje alinhado com o conceito de sustentabilidade, Rogers presta assessoria de urbanismo para as prefeituras de Londres e Barcelona. “Ele é um humanista que nos recorda que a arquitetura é a mais social das artes”, define Thomas Pritzker.

O terminal T4 do aeroporto de Barajas,em Madri, é uma das quatro obras seminais do italiano Richard Rogers

 

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