ANINHA GONZALEZ

ANINHA GONZALEZ

CASA / ONTEM

ENTRE A SIMPLES CASA DE UM VILAREJO CAPIXABA NA QUAL PASSOU A ADOLESCÊNCIA E A MODERNISTA MORADA ONDE VIVE HOJE COM A FAMÍLIA NO JARDIM PAULISTANO, A CHEF ANINHA GONZALEZ MANTEVE UMA PAIXÃO QUE ATRAVESSA O TEMPO: RECEBER E CELEBRAR COM OS AMIGOS.

Entre a infância e a juventude, Aninha Gonzalez calcula ter morado em cerca de dez imóveis em São Paulo, Vitória, Joinville e Florianópolis.
Entretanto, em meio a tanta variedade, um lugar se destaca na memória afetiva da chef paulistana: a casa localizada em Manguinhos, vilarejo de pescadores a 30 quilômetros da capital capixaba, onde viveu na década de 80, dos 12 aos 17 anos.
“Minha mãe estava separada do meu pai quando resolveu dar um tempo da vida corrida de São Paulo. Como tinha uma grande amiga em Vitória, resolveu mudar para lá”, conta. A primeira parada ao lado da mãe, Paula, foi em um apartamento, mas logo a dupla migraria para Manguinhos em busca de mais sossego. “Alugamos uma casa de frente para o mar, e minha vida de adolescente paulistana mudou radicalmente: comecei a passar muito tempo na praia e perto da natureza.”
Além da vista privilegiada, um dos pontos altos da casa era o amplo jardim com quadra de vôlei, onde Aninha costumava reunir os amigos. Nas férias escolares a animação aumentava. Isso porque a menina era vizinha da casa de praia da família da escritora Ana Maria Machado [ex presidente da Academia Brasileira de Letras]. De acordo com Aninha, o clã da autora é muito numeroso e, quando os jovens da família Machado vinham do Rio de Janeiro para curtir o litoral capixaba, a turma da moçada local ganhava muitos agregados. “Nesses momentos o grupo chegava a ter 50 adolescentes. Já pensou?”, diverte-se a chef. “A gente gostava de surfar, mergulhar e grelhar lagosta na fogueira que minha mãe acendia no gramadão de casa aos finais da tarde.”
Durante as férias de fim de ano eram também famosos os réveillons promovidos por Aninha e dona Paula. “Nossa casa estava sempre aberta para os amigos”, recorda a chef.
O jeito despojado da construção térrea ajudava a criar o clima de aconchego. “Era um lugar sem frescura, com decoração bem praiana e uma varanda enorme cheia de redes de balanço”, descreve. Para completar: “Em Manguinhos aprendi a valorizar a simplicidade”.
Aos 17 anos, Aninha trocou Manguinhos por um período de cinco anos em Joinville, em Santa Catarina, ao lado da mãe e do padrasto. Depois, foi estudar arquitetura, em Florianópolis. Entretanto, um ano mais tarde voltou para São Paulo e resolveu cursar jornalismo.
Foi assim, quando trabalhava na revista de gastronomia Gula, que descobriu o gosto pela cozinha. “Minha avó e minha mãe são exímias cozinheiras.” Com passagens por restaurantes como o de Daniel Boulud, em Nova York, além do Gero e do Fasano, em São Paulo, Aninha hoje comanda um bufê que leva o seu nome e alimenta as festas mais badaladas de São Paulo. “Gosto muito do que faço, porque sempre adorei receber e celebrar com os amigos.”

CASA/HOJE

A casa onde Aninha Gonzalez vive atualmente no Jardim Paulistano com o marido, o engenheiro Beto Gonçalves, e os filhos Pedro e Olívia, prova que a paixão da moradora em receber os amigos atravessa o tempo. “É um gosto que compartilho com Beto: adoramos fazer tanto pequenos encontros quanto grandes festas”, comenta a chef, que chegou a reunir 500 convidados em uma dessas oportunidades. “Nossos almoços de fim de semana costumam esticar noite adentro.”
A exemplo do que acontecia em Manguinhos no passado, a configuração da casa de hoje ajuda a criar um clima acolhedor. No térreo tudo fica integrado: living e sala de jantar se juntam à varanda com piso de cimento queimado – nos dias de festa o lugar com vista para a piscina se transforma em pista de dança. “É uma casa sem frescuras”, constata a chef sobre a construção de 600 metros quadrados assinada por Pedro Useche.
Aninha conheceu o arquiteto e designer venezuelano radicado em São Paulo quando foi contratada para fazer um evento na casa dele há cerca de sete anos. “Adorei o lugar e naquele dia disse ao Pedro que ele faria o projeto da minha casa definitiva.” Não demorou para a promessa ser cumprida. Quando a caçula Olívia nasceu, em 2008, a chef e o marido resolveram trocar o antigo endereço por um espaço maior e convocaram Useche para comandar a reforma.
A obra consumiu dois anos. “Foi uma mudança radical em que apenas a parte estrutural foi aproveitada”, conta a moradora.
“Mas Pedro conseguiu traduzir o que a gente tinha em mente. A parceria funcionou.”
O resultado é uma construção de formato retangular, com dois pavimentos, que não disfarça o sotaque modernista. Ao lado da estrutura de concreto, as réguas de madeira cumaru que forram o piso e a escada sem corrimão compõem uma base neutra para receber a decoração de cores vivas feita pela própria moradora. “A exemplo do que acontece na cozinha, o desafio é saber misturar as diferenças sem esquecer de que menos costuma ser mais.”
Aninha não se fez de rogada e reuniu móveis de estirpe, obras de arte, objetos garimpados em viagens e itens de família. Nesse último quesito enquadram-se as camas usadas por Olívia e Pedro que pertenceram a Beto e a sua irmã na infância. Já no living, em meio a móveis assinados por Harry Bertoia e o casal Charles e Ray Eames, destacam-se as telas da artista plástica Santuza Andrade, sogra de Aninha. A decoração ganha força com a iluminação natural, aliás, está aí uma das boas sacadas do projeto: as paredes laterais do térreo são de vidro e deixam o interior da construção sempre conectado à área externa. “Quando pisei aqui me apaixonei pelo jardim. É um privilégio mantê-lo sempre à vista”, comemora a moradora.

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