LÁ VEM HISTÓRIA

LÁ VEM HISTÓRIA

PARA OS IRMÃOS RUIZITO, FERNÃO, RODRIGO E JOÃO, A FAZENDA FOI UMA ESCOLA DE JORNALISMO, COM PROFESSORES PRIVILEGIADOS, COMO O AVÔ, O PAI E CONVIDADOS ILUSTRES.

1. Os Mesquitas na fazenda pouco depois de sua compra em 1912; 2. Júlio de Mesquita Filho conduz Fiel Jordão da Silva e o poeta Olavo Bilac (com chapéu na mão), em 1920; 3. Laurita com o recém-batizado filho Ruizito, em 1950; 4. Os familiares na carroça, ainda na década de 1910; 5. Na sala do casarão, antes da reforma de 1924, os Mesquita recebem a visita de Bilac (segundo da esq. para a dir.) e Rangel Pestana ()último à dir.); 6. Da esq. para a dir., os meninos Zizo ( Luis Vieira de Carvalho mesquita), Paulo Mesquita Mendonça, Caco ( Marco Antonio Vieira de Carvalho), Cecília Mesquita, Juca ( José Vieira de Carvalho Mesquita), Júlio Neto e Jorge Mendonça, na década de 1930.

A fazenda de café com 190 alqueires foi comprada em 1912 por Júlio de Mesquita, dez anos depois de ele se tornar o único proprietário do Estadão. De Louveira – onde passava a maior parte do tempo para cuidar de uma tuberculose –, o patriarca do jornal escreveu editoriais sobre a Primeira Guerra que impressionaram seus contemporâneos pela argúcia e riqueza de detalhes. Muitos leitores poderiam jurar que ele reportava direto do front, mas a realidade era um pouco mais prosaica: as notícias da guerra colhidas pelos correspondentes do Estadão na Europa chegavam pelo malote do trem, e as análises eram devolvidas a São Paulo da mesma forma.
Depois de uma reforma e uma ampliação da sede da fazenda em 1924, a Conceição do Barreiro tornou-se um posto importante da Revolução Constitucionalista de 1932. Ali foram guardadas armas e munição que seriam usadas para defender São Paulo das tropas federais. Com a notícia de uma batida policial na fazenda, as armas foram enterradas no pomar – e desenterradas anos mais tarde, sem terem sido usadas. Uma Winchester 44 dessa época foi dada de presente por Júlio de Mesquita Filho a seu neto Ruizito, que por sua vez presenteou seu irmão Fernão

1.O patriarca Júlio de Mesquita, que comprou a fazenda, diante de seu filho Júlio e da nora Marina, na década de 1910; 2. Marina, Judith, Alicinha e Sara carregam José Cerqueira Cesar em brincadeira na década de 1910; 3. Carnaval na fazenda; 4. Carlão, Ruy, Júlio de Mesquita Filho e Fausto Castilho recebem Sartre e Jorge Amado, de costas, em 1960; 5. Simone de Beauvoir ouve Júlio de Mesquita Filho, enquanto Marina observa a conversa de Sartre com uma convidada; 6. A fachada do casarão depois da reforma de 1924

Opositor de Getúlio Vargas, Júlio de Mesquita Filho foi preso 14 vezes e levado ao exílio pelo Estado Novo em 1938, abrigando-se na França e depois na Argentina. Enquanto estava no exterior, O Estado de S. Paulo foi expropriado da família. Em 1943, Júlio decidiu voltar ao Brasil, apesar do risco de ser preso. Com Getúlio enfraquecido, negociou uma prisão domiciliar – e passou os dois anos seguintes confinado justamente na Conceição do Barreiro, única propriedade que continuou nas mãos da família, e fez dela sua trincheira de combate contra o ditador. Em 1945, com o Getúlio deposto, Júlio recomprou e reassumiu o Estadão.
João Lara Mesquita lembra-se de uma outra visita ilustre à fazenda, depois da passagem de Sartre, no início dos anos 60: a do escritor norte-americano John dos Passos, autor da Trilogia USA. No dia de sua chegada, os Mesquita receberam a notícia de que um parente havia morrido em São Paulo e Dos Passos foi recebido, então, por um bando de adolescentes da família. Ainda assim, adorou a visita – “e sobretudo as caipirinhas!”, acrescenta João. “Ele tomou todas.”
Com o golpe militar de 1964 – que o jornal apoiou a princípio –, a fazenda em Louveira tornou-se novamente palco de debates importantes sobre os rumos do país. Ruy Mesquita Filho, o Ruizito, lembra-se de presenciar, ainda adolescente, uma conversa entre Júlio de Mesquita Filho e Carlos Lacerda. “Meu avô dizia que os militares iam devolver logo o poder aos civis, e o Lacerda respondeu que eles iriam ficar pelo menos 20 anos lá”, conta Ruizito. Com a promulgação em 1965 do Ato Institucional número 2 – que extinguia os partidos políticos e tornava a eleição indireta –, ficou claro que Lacerda estava correto. Júlio retirou o apoio do Estadão à ditadura, o jornal foi constantemente censurado e, como provocação, passou a publicar receitas culinárias e poemas de Camões no lugar das notícias proibidas.
Fernão Lara Mesquita lembra um causo curioso da chegada do homem à lua, em 1969. Com a família e funcionários da fazenda reunidos em torno de uma pequena TV em preto e branco, uma velha colona italiana exclamou, com sotaque carregado: “Mas que pontaria desses astronautas! Tinha só um fiapinho de lua! Porca la Madonna!”.

Compartilhar