CONEXÃO DIRETA

CONEXÃO DIRETA

Por quase duas décadas, ela foi sócia da agência de viagem fundada pela mãe, Teresa Perez, até decidir trilhar um caminho próprio. Hoje, Carolina Perez está à frente da Travelweek, feira que vem ajudando a revolucionar o turismo de luxo no Brasil e na América do sul.

Aquela viagem de barco pela costa espanhola na companhia de amigos deveria marcar o início de um ano sabático. Deveria. “Estava saindo da ilha de Minorca quando a ideia caiu como um raio na minha cabeça. Nem consegui dormir”, recorda Carolina Perez, que ao chegar na parada seguinte, em Barcelona, ligou na mesma hora para a mãe (e ex sócia), a empresária de turismo Teresa Perez. Ao ouvir a história, a matriarca vibrou. “Tenho uma grande conexão com minha mãe, que sempre foi minha melhor conselheira”, conta. “E pela reação dela percebi que a coisa realmente tinha futuro.” Era agosto de 2009 e Carolina estaria de volta à São Paulo natal em poucos dias para aprontar uma reviravolta em sua vida.
A reviravolta atende pelo nome de Travelweek, feira anual que está ajudando a movimentar o turismo de luxo do Brasil e da América do Sul, cuja segunda edição aconteceu entre os dias 10 e 13 de abril, no pavilhão da Bienal, no parque do Ibirapuera, em São Paulo. “A Travelweek funciona como uma plataforma de negócios que coloca em contato fornecedores do mundo inteiro, como hotéis ou empresas que alugam carros ou iates, com agências de viagem brasileiras e também de países como Argentina, Peru e Chile.” Ao longo dos três dias de evento são agendadas reuniões a cada 15 minutos para conectar parceiros que dividem interesses. “Se sua agência organiza viagens para a África, por exemplo, precisa conversar com o representante de uma empresa de lodges em Botsuana.”

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Todos os participantes são escolhidos a dedo. Em 2011, a feira atraiu 250 expositores com 350 marcas. “Mas não queremos crescer muito e perder essa faceta exclusiva, que é um dos grandes atrativos do nosso negócio”, avisa. Os participantes são só elogios. “Carolina foi muito perspicaz ao perceber com antecedência que o mercado brasileiro está na mira dos fornecedores lá de fora e não havia um evento no Brasil que pudesse conectar todo mundo”, observa Martin Frakenberg, sócio da agência Matueté. Dominic Ladet, diretor de vendas e marketing do hotel Fasano, concorda: “A Travelweek é muito importante para ampliar o repertório do setor de turismo brasileiro, a troca de informação dentro do evento é muito intensa”.
Deve ser por conta de tal apuro que alguém já comparou a Travelweek à SPArte, feira orquestrada por Fernanda Feitosa que vem sacudindo o mercado brasileiro de galerias – além, claro, de coincidências como o fato de ambos os eventos acontecerem no pavilhão da Bienal e as organizadoras compartilharem um perfil parecido. “Acho que a Travelweek e a SPArte têm como ponto em comum a preocupação em aproximar as pessoas do que é bom”, observa Carolina. “Entretanto, são propostas distintas: a Travelweek, por exemplo, não é mais uma feira aberta ao consumidor final, pois agora estamos 100% focados nas agências de viagem e nos fornecedores.”
Na edição de 2012, o público final de cerca de 2.500 convidados circulou pelos estandes apenas no coquetel de abertura. “Ninguém vai fechar uma viagem ali; é mais um momento para se inspirar, conhecer as novidades”, comenta a organizadora. Além disso, outras 500 convidadas marcaram presença no leilão beneficente em prol da Childhood, ONG criada pela rainha Sílvia da Suécia que combate a exploração sexual de crianças e adolescentes, cujo braço brasileiro é comandado por Rosana Camargo de Arruda Botelho. “Foi uma loucura organizar um evento dentro do outro, mas o esforço valeu a pena”, afirma Carolina. Em 2011, a partir da doação de 72 expositores, foram montados para o leilão 12 pacotes de viagens pelo mundo, cujo lance inicial era 40% abaixo do valor real. “Foi um sucesso. Arrecadamos R$ 230 mil, quantia que alimentou dois dos nossos projetos em 2011”, celebra Ana Flávia Gomes de Sá, assessora de Mobilização de Recursos da Childhood Brasil.

1. Carolina com o empresário argentino Alan Faena; 2. Anunciando o início do projeto com a amiga Paula Colesi; 3. Em feira de turismo, quando era sócia da Teresa Perez Tours; 4. Durante a primeira edição da Travelweek.

Trabalho de formiguinha

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E pensar que em 2009, ao sair da sociedade da Teresa Perez Tours, empresa fundada por sua mãe há duas décadas, tudo o que Carolina queria era sossego. “Dos 18 aos 34 anos eu só trabalhei, enquanto minhas amigas se divertiam”, lembra. “Ao me desligar da agência sonhei alto: queria tempo livre para finalmente aprender a tocar piano, malhar na academia, praticar ioga e ficar mais tempo com minha filha [Catarina, 7 anos]”, diz. Ao se tornar sócia com o irmão mais velho, Tomas, na empreitada materna, Carolina pressentiu que teria anos movimentados pela frente. “No início, a agência funcionava em uma salinha de 30 metros quadrados com apenas dois funcionários. Estava tudo nas nossas mãos”, diz. “O negócio se tornaria um sucesso mais tarde, mas durante a primeira década a gente questionou bastante se valia a pena a quantidade de tempo investido ali, com mais de 12 horas de trabalho diárias, sem direito a feriado.”
Tanto trabalho tinha razão de ser. Na época, o turismo de luxo engatinhava no país. “O papel de uma agência de viagem no Brasil há alguns anos era simplesmente emitir bilhetes aéreos e reservar hotéis. Faltava informação”, afirma. “A gente começou a fazer diferente: passou a conhecer a fundo o perfil do cliente e viver experiências fora do Brasil para poder sugerir roteiros customizados.”

1. Carolina sobre a prancha de wakeboard, esporte que pratica desde a adolescência; 2. No colo da avó materna, Terezinha, ladeada pelos irmãos Tomas e André; 3. Com a mãe, em São Petersburgo; 4. E com o pai, Ludovino.

Dentro da agência, Carolina se envolveu com o departamento de marketing e desenvolveu os sofisticados catálogos The Traveller, que passaram a ser encartados na revista da Daslu, em 2001. “Tudo foi ideia da Carolina”, elogia a mãe. “Ela concebeu a identidade da agência, foi um momento muito importante na vida da empresa.
”Não por acaso, a saída da agência é definida por mãe e filha como “um momento de luto”. Carolina nega que a decisão tenha sido motivada por desencontros com o irmão Tomas. “Chegou uma hora em que eu me cansei do trabalho que estava fazendo, aquilo já não fazia meu coração bater forte”, explica. “Mas foi difícil: estava jogando para o alto minha estabilidade financeira, anos de trabalho e a ligação afetiva com a empresa que ajudei a crescer. Sem contar que eu não tinha a mínima ideia do que queria fazer da vida”. Entretanto, como diz a coaching de carreira e de vida e amiga de adolescência Ana Raia, determinação nunca faltou a Carolina. “Ela é muito batalhadora”, constata Ana. “Meus olhos se encheram de água no dia em que entrei na Travelweek e vi que ela havia conseguido dar vida a um sonho.”
A Travelweek é resultado de um trabalho de formiguinha. “No início, minha imagem estava muito vinculada à da agência e foi duro convencer as pessoas que eu poderia fazer algo diferente”, recorda. Um dos primeiros parceiros a dizer sim à ideia foi a luxuosa rede de hotéis Dorchester Collection, com cinco estrelas espalhadas por lugares como Londres, Paris e Milão. “Não tínhamos dúvidas de que ela faria algo maravilhoso”, observa Gloria Mendez, diretora de vendas da rede para a América Latina. “Ela é uma profissional como poucas.”
Nada mal para a menina que nunca gostou de estudar. “Sempre fui rebelde e sei que meus pais se preocupavam com meu futuro”, recorda. “Ainda bem que me encontrei no trabalho.” Perfeccionista de carteirinha, Carolina continua se realizando em meio a um expediente puxado. “Já estamos selecionando os fornecedores, aperfeiçoando a logística para a edição de 2013...”, lista. Pelo visto, retomar o projeto de viver aquele ano sabático interrompido precocemente na ilha de Minorca está fora de questão. Pelo menos por enquanto. Além de comandar a Travelweek, Carolina recentemente se tornou sócia da irmã caçula, Carmem, em uma fazenda no Centro-Oeste do Brasil para extração de borracha. “Agora, também sou hevicultora”, avisa com uma risada. “Não consigo ficar parada.”

MAPA DE QUALIDADE

CAROLINA PEREZ NUNCA SE PREOCUPOU EM CONTAR QUANTOS PAÍSES JÁ VISITOU. “O QUE IMPORTA É A QUALIDADE DO TEMPO QUE PASSO EM DETERMINADO LUGAR”, DIZ. A SEGUIR, ELA ELEGE SUAS VIAGENS INESQUECÍVEIS.

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PAIXÃO PELA TERRA

“Adoro a Toscana! Em Florença, gostei muito de ficar no Lungarno, propriedade da família Ferragamo, um hotel boutique ultra charmoso, a passos da Ponte Vecchio e de vários monumentos da Renascença. A gastronomia fiorentina é tentadora, simples e deliciosa. E duas trattorias que considero imperdíveis são a Coco Lezzone e a Cantinetta, com especialidades locais de dar água na boca. Outra parada que adoro é o castelo Banfi, um autêntico “burgo” no coração da região produtora dos Brunellos, em Montalcino. O lugar é muito bonito e a propriedade transmite a paixão pelos vinhos, pela uva e pela terra, com muita sofisticação e serviços impecáveis.”

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O REINO DOS DRAGÕES

“Há onze anos, visitei o Butão, a terra dos dragões, e foi muito inspirador o contato com seu povo, alegre e espiritualizado. Os monastérios budistas são lindíssimos e impressionam não só pela arquitetura, mas pelo fato de estarem nos picos mais altos, com vistas espetaculares. É um destino para quem ama natureza e esportes de aventura – trata-se de um dos melhores lugares do mundo para a prática de trekking e rafting. Na época da minha viagem, não havia opções para hospedagem e fiquei em hotéis muito simples, porém corretos. A boa notícia é que a rede Amanresorts instalou anos depois, em cinco localidades, o hotel Amankora, em estilo zen-chic e integrado à cultura local.”

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PAISAGENS BUCÓLICAS

“A Índia é colorida, genuína e apaixonante. Delhi, Agra e o estado do Rajastão concentram as heranças mais incríveis, especialmente o Rajastão que foi cenário das dinastias Mughal e do reinado dos Marajás. Em Jodhpur, a Cidade Azul, fiquei no Umaid Bhawan Palace, da rede Taj – um lugar lindíssimo em estilo art deco! Em Udaipur adorei ficar no OberoiUdaivilas, as margens do romântico Lago Pichola. Em noite de lua cheia o ambiente ganha um ar mágico e muito especial. O interior do Rajastão tem uma poesia e uma atmosfera única. Lá fiquei no deslumbrante Amanbagh, da rede Amanresorts, a cerca de duas horas de Jaipur. É um lugar para relaxar, curtir um spa espetacular e as paisagens bucólicas onde vive um povo simples e muito amável.”

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NO CORAÇÃO DA ÁFRICA

“Minha verdadeira paixão é pelas viagens em que posso ficar em contato com a natureza, sentir o cheiro do mato, ouvir o silêncio e recarregar as baterias. E, nesta proposta, a África é perfeita. No Okavango Delta, em Botsuana, uma imensa área alagada e imbatível em concentração de vida selvagem, está um dos ecossistemas mais preservados da África. Como há severas restrições para o número de visitantes, o país se tornou um destino ultra exclusivo, com poucos lodges (os da &Beyond estão entre os mais top da África) em concessões privadas, alguns muito sofisticados e dentro do conceito rustic-chic.”

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IMENSIDÃO AZUL

“O mar das Maldivas é a coisa mais deslumbrante, transparente e turquesa que se possa imaginar. Ali, passei dias inesquecíveis, com minha filha Catarina (minha supercompanheira de viagem), minha irmã Carmen e minha mãe, Teresa. Amamos curtir aquela imensidão azul, a brisa suave e o serviço tão amável. Ficamos no Hotel One & Only Reethi Rah, em uma ilha cercada de areia branca, com vilas construídas em palafitas sobre o mar. Todos os dias acordávamos e dávamos um mergulho antes do café da manha. Foi realmente um sonho de viagem, especialmente para mim, que sou apaixonada pelo mar.”

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DELICADEZA E ARTE

“Tive o privilégio de fazer uma viagem gastronômica ao Japão, com Jun Sakamoto, em 2009. Experimentar e curtir a delicadeza e a arte da culinária japonesa, no Japão, foi uma experiência incrível. Em Tóquio, recomendo visitar o mercado de peixe Tsukiji para ver o leilão onde imensas peças de atum fresco podem ser vendidas por até US$ 150 mil ou experimentar o sushi do Kyubei. Vale também ir à região de Hakone para visitar o Hakone Open Air Museum e passar uma noite do Ryokan Gora Kadan–Relais & Châteaux, montado como uma autêntica hospedaria japonesa.”

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