PERDEU, SÃO PAULO.

PERDEU, SÃO PAULO.

COM AS MUDANÇAS DE HÁBITO DOS CONSUMIDORES, CASAS E COMÉRCIOS QUE MARCARAM ÉPOCA RESOLVERAM FECHAR SUAS PORTAS – E A CIDADE PERDEU PARTE DE SUA ELEGÂNCIA E SOFISTICAÇÃO.

“Era um lugar que não se encaixa mais no mundo de hoje.” O comentário de Gregorio Kramer se refere à Larmod, loja de tecidos e itens para casa que ele comandou por mais de 20 anos com o parceiro Attilio Baschera. O ponto criado no início da década de 70 atraía clientes como o decorador Germano Mariutti (dono da festa do ano no Guarujá, quando o Guarujá era “a” praia dos paulistanos chiques), o arquiteto Sig Bergamin e as empresárias Christiana Neves da Rocha e Costanza Pascolato até fechar as portas na década de 90. “No fundo, a gente vendia conceito, eu conhecia todos os clientes pelo nome. Era uma coisa de época, o (restaurante) Massimo também era assim. Hoje os donos dos restaurantes têm tantos estabelecimentos que não conseguem estar presentes em todos eles”, continua Gregório. “São outros tempos!”
A exemplo da Larmod, muitos lugares queridos pela sociedade paulistana no passado não sobreviveram à passagem do tempo e pelos mais variados motivos encerraram suas atividades, deixando os frequentadores na saudade. Nessa lista figuram, entre outros, o próprio restaurante Massimo, o bar Pandoro e a Tweed, grife de moda masculina que teve endereço no shopping Iguatemi e cuja fábrica na Barra Funda também abrigava uma loja frequentada por gente como Fernando Henrique Cardoso. “Ao contrário de cidades como Buenos Aires e Paris, que preservam suas tradições, São Paulo é um lugar antropofágico por excelência, que se reinventa o tempo todo e se alimenta da novidade”, explica a historiadora Karen Worcman, diretora do Museu da Pessoa e uma das coordenadoras do projeto Memórias do Comércio, realizado em parceria com o Sesc/São Paulo. “É uma característica cultural da cidade que se reflete no seu comércio para o bem e para o mal.”
De acordo com a estudiosa, alguns elementos ajudam a entender essa história. “São Paulo cresceu muito nas últimas décadas. A população aumentou, a cidade se espalhou e seu espaço físico passou a ser ocupado de forma diferente ao longo do tempo”, acredita Karen. “Nas primeiras décadas do século passado, por exemplo, o comércio chique estava no centro da cidade, no Largo do Arouche, na Avenida São Luiz.” Mais tarde, na década de 1960, prossegue Karen, foi a vez da região da rua Augusta – onde se instalaram o ateliê de costura Peleteria Americana [rebatizada como Madame Rosita] e as butiques New England, Via Condotti e Paraphernália. Já hoje o comércio paulistano segue uma característica das megalópoles. “Está cada vez mais segmentado e digital”, observa Karen.
Outro ponto importante para compreender a dinâmica do comércio paulistano tem a ver com as diferenças entre gerações. “É uma questão de comportamento. Com o tempo, os lugares deixam de fazer sentido para as novas gerações, que em geral não têm com esses espaços um vínculo afetivo como tinham as antigas gerações”, diz Karen. Para concluir: “Nesse contexto, é preciso sempre se reinventar”.

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