O GUARDIÃO DO JARDIM

O GUARDIÃO DO JARDIM

Nos anos 1970 e 1980, as famosas festas promovidas pelo colecionador kim esteve, na chácara Flora, atraíam uma turma seleta de músicos, atores, fotógrafos e críticos de arte. Private Brokers visitou a famosa casa deste “embaixador da cultura brasileira” e faz um retrato daquela época.

E então, no meio de um grupo seletíssimo de artistas, dos mais incensados galeristas do momento, de cineastas, atores, escritores, jornalistas, bailarinos, socialites, de toda aquela ode ao desbunde criativo, surgia Bobby Short para dar uma canja chique, tocar canções que não faziam parte de seu repertório habitual e que só um ambiente muito exclusivo inspiraria. Bobby logo estaria posando para o fotógrafo David Drew Zingg ao lado da chef ocasional Loretta da Martinica, tendo ao fundo a Pintura de Carnaval, de Carlos Vergara. Em outra ocasião, o centro das atenções era a performer Laurie Anderson, que acabara de aprender a tocar berimbau. Ou o maestro Zubin Mehta, o ator Willem Defoe, o cantor Ray Charles...
Se o gramado bem aparadíssimo da casa do colecionador Kim Esteve, na Chácara Flora, falasse, suas histórias certamente renderiam um dos retratos mais apurados dos deslumbradíssimos anos 1980 em São Paulo. No “almoço na casa do Kim”, cuja versão mais concorrida acontecia nas vésperas das inaugurações das bienais de artes plásticas, era comum cruzar com figuras como o curador do Museu de Arte Moderna de Nova York, Rob Storr; o fotógrafo Jonathan Becker, da Vanity Fair; o mega colecionador Gilberto Chateaubriand. Pode-se imaginar como isso acelerava as almas sempre atormentadas dos artistas em busca da consagração.

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Almoço na década de 1990 que reuniu amigos como Jua Haffers e Milu Vilela (em primeiro plano, na mesa à esquerda)

Naquela época, não existia revista Caras, BBB ou SUV – andava-se de Mercedes ou de Fusca sem risco de perder o charme. Mas o clube era para poucos. Para dar uma ideia, no livro A memória do guardião, de tiragem limitada (editora Terceiro Nome), Kim editou páginas e páginas de fotos dos felizardos frequentadores de sua casa sem nenhuma legenda aparente. Elas estão no final da edição, coisa que nem precisava: o livro foi distribuído a um grupo de happy few (uma expressão muito usada pelos colunistas da época), quase todos personagens daquelas fotos. Eles eram os big brothers do momento. Nos cliques, aparecem nas poses mais casuais do mundo, gargalhando com o queixo apontado para o céu, brincando com o golden retriever da casa ou brindando em direção à lente, com uma flûte de champanhe na mão. De Regina Boni a Raul Cortez, de Sig Bergamin a Bobby [“Don’t worry, be happy”] McFerrin.
Naquele tempo, em que os colunistas sociais ainda se escoravam em expressões em inglês ou francês, como charming, up to date, just in case ou comme il faut, o famoso almoço era chamado pela crônica especializada de garden party.

OLD MONKIES

Filho de pais americanos que tinham negócios com algodão e se estabeleceram no Brasil na primeira metade do século passado, Kim Esteve nasceu em São Paulo, estudou em Connecticut, viveu em Nova York, velejou em Long Island, enfim, teve tempo suficiente para frequentar as melhores galerias de arte do mundo. Kim era rico, muito rico, e, para a sorte de todos os potenciais talentos nacionais, um sujeito tremendamente agregador. “Uma das melhores coisas que se pode proporcionar às pessoas é apresentá-las a gente que elas gostariam de conhecer. Essa é a função do assunto”, ensina.
Os maiores beneficiários de sua superexpandida rede de contatos eram os old monkies, ou macacos velhos, grupo integrado por artistas como Ivald Granato, Antônio Peticov, Tomoshigue Kasuno, James Stewart- Granger, Wesley Duke Lee, Charles Bosworth e David Drew Zingg. “Conheci o Kim quando cheguei ao Rio, por intermédio da [socialite] Betsy Monteiro de Carvalho”, lembra um dos macacos, o fotógrafo inglês James Stewart-Granger, que atualmente mora no sul da Bahia. “Como éramos dois gringos, nos aproximamos rapidamente e a amizade cresceu ao longo dos anos.” Ele tem Esteve como “um embaixador da cultura brasileira”. “Dificilmente alguém com interesse em arte, especialmente nos anos 1980, não passou pela casa do Kim”, recorda. “Aquilo virou um caldeirão cultural e os visitantes eram sempre importantes.”

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Tudo na chácara começou nos anos 1970, bem antes do frenesi do mercado de artes em São Paulo, na década seguinte, quando os vernissages passaram a encher as galerias da cidade e frequentá-los era parte obrigatória da agenda dos culturetes. As aberturas das exposições eram tão concorridas quanto um desfile com Gisele no Fashion Week.
A galerista Luísa Strina, uma das mais disputadas já naquela época, lembra: “O Kim era muito generoso com os artistas. Ele não só convidava e bancava as festas, mas os apresentava a críticos do mundo todo e comprava, ele mesmo, as obras”.

Segundo ela, todo mundo que pisava em São Paulo tinha de passar pela Chácara Flora. “Foram tempos maravilhosos, mas fizeram parte de uma época, não dá para voltar, até porque eu não vejo substituto para o Kim”, afirma a galerista. O que quer que ocorresse em termos de artes visuais na cidade estava inapelavelmente associado a Kim Esteve. Os curadores e galeristas, a Bienal, todos queriam combinar as datas de seus eventos com as festas na casa dele. “Eu ajudei a organizar algumas, era uma delícia”, lembra Luísa. “E o que fascinava no Kim era que, se ele convidava as pessoas para ir à praia, por exemplo, não levava somente a comida e o que fosse preciso para o conforto dos hóspedes. Levava também a decoração, cadeiras, almofadas, lustres, quadros. Isso para passar dez dias, e numa casa que às vezes não era nem dele, mas alugada.”

1. O pintor Wesley Duke Lee (à esquerda) e o anfitrião; 2. Kim com os artistas Ivald Granato (centro) e Hélio Oiticica; 3. O cantor Bobby Short e a chef Lauretta da Martinica durante encontro na Chácara Flora.

ARTE EXPERIMENTADA

As festas na chácara ocorrem ainda hoje, mas em proporções bem mais modestas. “Chegamos a receber mil pessoas aqui. Em uma ocasião, tinha até tenda de circo”, lembra Kim, enquanto conduz a equipe de Private Brokers pelo bucólico cenário das garden parties.
Com a fachada principal voltada para o norte, a casa fica a 12 quilômetros do centro da cidade, em um terreno de 12 mil metros quadrados, surpreendentemente indevassável. A construção tem estilo híbrido – algo ali faz lembrar as mansões dos Hamptons, mas há também um perfume britânico. Construída em 1924 pelo engenheiro americano Drury McMillan, considerado um aventureiro que veio “explorar” São Paulo, a casa foi comprada e praticamente reconstruída por Kim em 1972. Seus pais e muitos estrangeiros que migravam para a cidade, incluindo McMillan, escolheram a chácara para morar, de forma que Kim cresceu brincando nas proximidades do jardim que se tornaria, décadas depois, a obra mais imprescindível de sua coleção.

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O painel no escritório exibe fotos e recordações dos amigos que Kim recebeu na Chácara Flora ou que encontrou em festas pelo mundo.

Apesar do aspecto atraente da fachada em branco e verde, das paredes cobertas de hera e de todos os detalhes personalíssimos da casa, Kim prefere chamar
a atenção para os arranjos e os recantos formados por costelas-de-adão, magnólias, cerejeiras, bambuzais e pinheiros. “O mais importante aqui são as espécies de plantas desse jardim”, diz, enquanto aponta para um grupo de árvores grandes que acompanham o muro que faz limite com a rua. “Aquilo tudo é da família da sequoia.” Sete empregados, diz ele, cuidam de tudo.
Esculturas e instalações estão em toda parte. Algumas se mimetizam com o verde das plantas ou o marrom dos troncos. Kim liga o chafariz que decora uma parte arredondada da piscina com duas raias, estrategicamente construída no meio do gramado. Diz que mergulha e nada todos os dias; ele e a mulher, a americana Barbara Leary.
Kim conheceu Barbara na Califórnia, em 1991, quando ela ainda estava casada com Timothy Leary, o papa da contracultura e notório divulgador do ácido lisérgico como agente terapêutico. Àquela altura, Kim já estava separado da primeira mulher, Libba, com quem teve dois filhos. No ano seguinte, os Leary vieram a São Paulo a trabalho e, como qualquer visitante ilustre da cidade, foram parar nas festanças bem aditivadas de Kim. Os convidados os receberam com a maior admiração.

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“Tenho profundo respeito pelas experiências do Timothy com LSD”, diz Antônio Peticov, também macaco velho e até hoje um dos mais assíduos frequentadores da casa de Kim. Peticov considera privilegiados todos os que tiveram acesso aos “maiores brainstormings que a cidade já produziu”, na definição do artista. “O ambiente na casa do Kim era muito fértil, a gente experimentava arte, lia, pensava, produzia”, Peticov lembra. “Quando se resolvia, por exemplo, pintar uma parede, o debate em torno daquilo durava dias.”
Timothy Leary voltou para a Califórnia, Barbara ficou para produzir um documentário; o casal logo anunciou sua separação, e ela mudou-se definitivamente para a casa de Kim. Chef reconhecida pelos frequentadores da chácara, Barbara costuma oferecer pratos inspirados nos cardápios apimentados de Nova Orleans e também em híbridos do repertório oriental e da cozinha internacional.

Retratos íntimos

Kim apresenta as duas alas da casa, frisando a cada novo ambiente – incluindo o que ostenta um majestoso Stainway de 1928 – que sempre imaginou algo “muito simples”. A ala social abriga dois salões, a cozinha principal, o bar e grande parte das obras adquiridas naquele período. Um corredor largo e comprido, que vai da biblioteca ao escritório, é também a principal “galeria” da casa. Suas paredes estão completamente ocupadas, de cima a baixo, por fotografias, pinturas, gravuras e dedicatórias.

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O próprio Kim lê uma, do milionário americano David Rockfeller, escrita quando esteve por ali: “Your house and gardens are most attractive, and the collection you have assembled is a very outsanding one...” [Sua casa e jardins são extremamente atraentes, e a coleção que você angariou é muito impressionante...].

Não disfarçadamente orgulhoso, Kim ajeita os quadros que (a ele) parecem milimetricamente tortos, e vai aprememória sentando a história de cada um. Para usar outra expressão da época, Kim adora um name dropping. A cada foto ou obra, fala do retratado e de quem assina o trabalho como se fossem íntimos, inclusive de nossa equipe. Tudo gente finíssima. Ella, Roy, Andy, Martin... Explica que quem o iniciou e o fez tomar gosto pelas belas-artes foi Edward Marcus, presidente da loja de departamentos Neiman Marcus. Em frente ao Cadillac 1972 que guarda numa das garagens, ele conta: “Quando o Wim [Wenders] esteve aqui, saí para dar umas voltas com ele”.
Ao lado, aquarela do crítico Robert Hughes (à direita) feitos especialmente para Kim.

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A casa se estende até uma ala mais reservada, onde estão a sala menor, uma espécie de cozinha de apoio e os quartos. É esta a parte da casa ocupada por Kim e Barbara no dia a dia. Chama a atenção a mistura extremamente feliz de elementos antiquíssimos, como a louça da suíte do casal, cujo vitrô colorido é obra de Wesley Duke Lee. “Essa parte”, diz Kim, “tem influência do new england.” Em uma das saídas do quarto está o closet, estreito, quatro degraus abaixo do nível da casa. Nas estantes, os livros estão dispostos com casualidade. O chão de lajotas e as paredes caiadas dão um ar rústico aos ambientes. Do lado de fora, há uma espécie de edícula que serviu de hospedagem para artistas como o amigo americano Neil Williams, que pensava em morar definitivamente ali, mas morreu em Nova York quando preparava a mudança; e também Hélio Oiticica e o próprio Peticov. E tome história.

O monumento mais impressionante do lugar é certamente o imenso pavilhão construído bem depois da reforma (e de muitos brainstormings) com concepção de Kim em parceria com o arquiteto Charles Bosworth, também monky. A galeria particular tem porte suficiente para abrigar, como diz Peticov, “uma escultura de 50 toneladas e uma bailarina de 20 centímetros”. Embaixo do teto altíssimo e retrátil, estão as maiores pinturas de sua coleção. Há ainda um contêiner cheio delas que se encontra “estacionado” no jardim. No pavilhão estão telas e esculturas dos macacos e de figuras como Lygia Pape, por exemplo.

O périplo continua e, apesar do óbvio prazer em mostrar tudo, Kim parece triste com a perspectiva cada vez mais real de ter de vender a casa. O cenário ficou grande demais e, como diz Luísa Strina, os tempos são outros. Manter uma estrutura daquelas, para um jovem senhor de 71 anos, dá muito trabalho. O consolo de Kim é que, seja quem for o comprador, e mesmo que leve parte das obras, as histórias das garden parties ficarão guardadas para sempre.

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