ENTRE O MAR E A MADEIRA

ENTRE O MAR E A MADEIRA

ELE SURFOU NA ONDA DA CONTRACULTURA E COLECIONA HISTÓRIAS QUE RENDERIAM ROTEIRO DE FILME. CONHEÇA AFRÂNIO CUNHA, O MENINO DO RIO QUE APRESENTOU AO BRASIL A EXUBERÂNCIA DA CULTURA INDONÉSIA NA HORA DE DECORAR A CASA.

Achamos maravilhoso diamante bola de pingue-pongue 60 quilates.” Afrânio Cunha tinha 13 anos e passava as férias na casa de um amigo quando recebeu esse telegrama do pai – um garimpeiro mineiro que se formou em direito no Rio de Janeiro, mas que nunca abandonou o garimpo por esporte. No fim das férias, em vez de voltar para o sobrado na Rua do Catete, o menino já encontrou a família morando num grande apartamento em Copacabana. O golpe de sorte fez a adolescência de Afrânio e seus quatro irmãos virarem de cabeça para baixo. Mas, talvez até mais do que o dinheiro, outra mudança teve papel decisivo na vida dos garotos: a proximidade do mar. Um irmão se encantou pela pescaria – e até hoje integra o tradicional time de pescadores do Posto 6 –, enquanto Afrânio se deixou enfeitiçar pelo surf. Era os anos 60, a febre do píer de Ipanema. Caetano Veloso cantava “Menino do rio” para José Artur Machado, o Petit, mas poderia ser para Afrânio Cunha.

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Quase 50 anos depois, ele ainda mantém o corpo bronzeado e enxuto pela prática constante do esporte ao ar livre. “Com a correria, não consigo pegar onda todo
dia. Mas, quando faz um dia excepcional, eu não resisto”, confessa, enquanto caminha pela Eurasienne – sua loja de móveis e peças de decoração no alto da estrada do Joá, no bairro carioca de São Conrado. Ironicamente, era um sábado ensolarado, mas ele tinha mil compromissos agendados e não podia cair no mar. Afrânio Cunha parou um instante para atender o celular: era o arquiteto Miguel Pinto Guimarães, agendando para aquela tarde uma visita com dois clientes. O enorme galpão de três andares é abarrotado de bancos, mesas, poltronas, armários, vasos, esculturas e peças selecionadas ou encomendadas por ele, feitas por artesãos de Bali que ele conhece há mais de 30 anos. Seu bom gosto fez dele o queridinho dos arquitetos e decoradores, lhe rendeu clientes da mais exigente elite brasileira, como Betsy Monteiro de Carvalho, Antonio Dias Leite, Andrea Dellal, Charlene Shorto, Eduardo Mariani, Fatima Otero, Yolanda Barreto e o casal Luís Pastore e Carolina Overmeer. O mar, parceiro de toda a vida, foi sempre o seu norte.

1. Em um catamarã entre Porto Rico e Panamá, em 1978; 2. Afrânio (de short amarelo) com os amigos Hugo Jereissati (de vermelho) e Pepê Lopes (de short cinza), em Bali, nos anos 70; 3. Curtindo a praia de Saquarema, na década de 80, com os filhos Cyran (de azul) e Taufan; 4. Com a namorada, Camila Jereissati, no Taiti, em 2010.

“QUANTAS NOIVAS VOCÊ TEM?”

Na juventude, seu pai chegou a ficar apreensivo por seu futuro: Afrânio Cunha pulava de faculdade em faculdade sem conseguir concluir arquitetura, engenharia, belas artes. O pai conseguiu um emprego para ele na Companhia Siderúrgica Nacional – cobiçadíssimo na época. O menino bem que se esforçou. Vestiu terno, gravata e pegou logo cedo um ônibus sentido centro da cidade. Mas o destino quis que a linha passasse justamente pela avenida Atlântica, e o mar estava especialmente convidativo naquele dia. Não teve jeito. O pai acabou entendendo que Afrânio tinha herdado seu espírito aventureiro e respeitou. Mais tarde, no trato com os clientes, o filho seguiria muitos de seus conselhos. “Eu encontrei o meu lugar como comerciante de móveis e não me atrevo a decorar. Meu pai dizia: ‘Não vá o sapateiro além dos sapatos’, e eu respeito muito o espaço de cada um”, afirma.
Logo depois do fracasso da CSN, Afrânio recebeu um convite mais excitante: viver numa comunidade de pescadores em Búzios. “Naquela época todo mundo andava seminu em Búzios, só tinha gringos: franceses, argentinos”, narra. Os amigos viviam da pesca, e a proposta de transportar um barco até Londres pareceu uma aventura sob medida para quatro jovens. Cada um levou uma namorada a tiracolo, e, depois da primeira parada na Bahia, eles já tinham resolvido dar uma esticadinha até o Caribe para só depois seguir viagem até a Europa. Quando chegaram à Martinica, perceberam que o dinheiro tinha acabado. Alguns pularam fora e voltaram para o Brasil, outros tentaram levantar a verba para o resto da viagem fazendo alguns fretes com o barco. Mas a vida caribenha era atraente demais para que eles se preocupassem com economia, e esse tempo foi se esticando – até o dono do barco aparecer para tirar satisfação. Os remanescentes chegaram a convencê-lo de que eles concluiriam a missão depois de um período por ali – mas alguns desentendimentos fizeram o grupo se desintegrar de vez. O barco nunca atravessou o Atlântico. Nesse meio-tempo, Afrânio Cunha conheceu Brigitte, uma vietnamita de ascendência francesa que vivia por ali – e que viria a ser a mãe de seus filhos. Os dois juntos atravessaram o canal do Panamá, velejaram pelo Pacífico até Cartagena e mais tarde entraram no Brasil pela Amazônia.

Depois do Caribe, Afrânio Cunha começou a planejar a outra viagem dos seus sonhos: Bali. Já era o final dos anos 70, e a ilha indonésia começava a atrair surfistas de todo o mundo. Para alcançar o objetivo, ele traçou um plano – que não poderia deixar de ter a praia como tema. Encheu uma mala com mil biquínis das confecções Toth e Ignez Minsen e partiu com destino à Côte d’Azur. A alfândega do Charles de Gaulle tentou barrá-lo: “Quantas noivas você tem para tantos biquínis?”,perguntaram. Mas, bom de papo, ele conseguiu sair ileso e com a carga toda. A novidade fez tanto sucesso nas praias mediterrâneas que as próprias lojas lhe propuseram uma parceria para legalizar a comercialização. E, cada vez que conseguia juntar dinheiro, claro, fugia para Bali. Com o espírito empreendedor, seguiu com a cruzada no outro sentido: ele e Brigitte abriram uma loja de moda feminina em Búzios e começaram a trazer roupas de Bali que viraram o maior sucesso nas praias brasileiras. Assim nasceu a Eurasienne. Foi então que, de volta a Paris, recebeu outro telegrama que mudaria a sua vida – agora de um cliente de Mônaco, para quem havia vendido apenas 50 peças. O comerciante contou que as princesas Caroline e Stephany tinham se encantado com os biquínis e, pura sorte, um paparazzi havia flagrado Caroline na praia com um modelito onde se lia claramente a marca Toth bordada.

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Foi um frenesi: os pedidos não paravam de chegar e, só naquele verão, Afrânio vendeu 17 mil peças. Mais tarde, nos anos 90, ele foi apresentado a Caroline de Mônaco e comentou com ela como aquele biquíni deu uma guinada nos seus planos. A princesa adorou a história, Afrânio ficou amigo de toda a família e, sempre que alguém da dinastia visita o Brasil, ele faz questão de fazer as honras.

Nessa maré boa, o empresário construiu uma “cabaninha” em Bali (na verdade, uma simpática casinha de frente para o oceano Índico), e desde então foge para lá pelo
menos três meses por ano. “É o meu QGzinho, o meu Gudang”, diz, mostrando a foto da casa em seu laptop. Logo que se instalou em Bali, Afrânio Cunha conheceu outro brasileiro que vivia por aquelas bandas: o decorador Hugo Jereissati (irmão caçula do senador Tasso, falecido em 2009). “Hugo me apresentou aos donos das casas mais bonitas da Indonésia, aprendi tudo com ele”, lembra Cunha. “Eu me encantei com os móveis e consegui mandar num contêiner a mobília toda para decorar o meu apartamento carioca.” Os amigos que o visitavam caíam de amores pela decoração e começaram a encomendar peças para as próximas viagens de Afrânio.
Nas temporadas em Bali, ele fez amizade com os artesãos e acompanhava todo o processo. Os móveis se empilhavam no seu apartamento quando o arquiteto Cláudio Bernardes ofereceu o segundo andar inteiro do seu Studio 999 para acolher a nova Eurasienne. “O Cláudio me pegou pelo braço, realmente”, diz. Foi a porta de entrada para os móveis de Afrânio caírem no gosto dos arquitetos mais badalados. “A Eurasienne foi a primeira loja com móveis e objetos da Indonésia no Brasil. O que a diferencia das outras que vieram na esteira foi sempre ter algumas peças extraordinárias, muitas vezes antigas, que saem do feijão com arroz que invadiu o mercado”, conta a designer Cláudia Moreira Salles, que foi apresentada a Afrânio por Hugo Jereissati. O primeiro móvel intermediado por Afrânio que entrou em sua casa foi um sofá, presente de um amigo. Mais tarde, foi adquirindo outras peças diretamente com Afrânio – das quais os xodós são dois vasos em terracota cinza e um animal de madeira para quebrar casca de coco. “Ele tem um olhar muito apurado para objetos também. Sabe separar o joio do trigo.”

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Acima, a casa carioca do financista e jet setter britânico Nat Rothschild com móveis da Eurasienne.

Recentemente, o financista e jet setter britânico Nat Rothschild se apaixonou por uma casa projetada por Bernardes no Rio de Janeiro. O imóvel já tinha visto dias melhores, mas Rothschild deu apenas um ano para seu designer de interiores Tino Zervudachi deixá-lo tinindo. Zervudachi então se cercou de um time de profissionais brasileiros, começando pelo arquiteto Luciano Pedrosa – e deixou toda a mobília por conta de Afrânio Cunha. A bela casa foi destaque na Architectural Digest, e mais clientes de Paris, Londres e até Tóquio procuraram por Afrânio.
A decoradora paulistana Esther Giobbi, sua amiga há 15 anos, faz elogios rasgados: “Ele tem o olho esperto, conhece a ilha direito, os artesãos”, diz. Esther não apenas recomenda o trabalho de Afrânio Cunha para os seus clientes como tem algumas peças em sua casa, como cachepôs e fragmentos de madeira. “Ele trouxe um piso maravilhoso de iron wood para a casa do meu filho, ficou lindo. Nós temos o gosto superparecido”, completa.

1. Cadeira de Java e luminárias do designer italiano Carlo Pessina; 2. Ao lado, visão geral do galpão de três andares que abriga a loja.

HISTÓRIAS DE CINEMA

Há 30 anos no ramo, Afrânio Cunha não ficou parado no tempo e teve sensibilidade para acompanhar as tendências no design de interiores. “Quando o mundo não conhecia Bali, tudo o que era de lá tinha uma aceitação incrível”, recorda. “Mas, com o tempo, ficou uma coisa cansada, e eu comecei a recorrer a designers e arquitetos mais modernos para projetarem os móveis para mim.” Enquanto exibia uma poltrona projetada pelo designer de Donna Karan em seu depósito, ele contava que leva os projetos para os mesmos caprichosos artesãos de Bali, e produz móveis únicos com as mesmas madeiras: taek, iron e ebony wood. Hoje namorando a arquiteta Camila Jereissati – sobrinha de Hugo –, Afrânio Cunha conseguiu incutir nela a paixão pela Indonésia. Companheira no surf e no design de interiores, Camila planeja trazer de Bali uma casa inteira de peças encaixáveis.
Sentado em um longo banco de madeira rústica, com o laptop apoiado no colo enquanto seleciona algumas fotos, registros de sua vida agitada, Afrânio Cunha não aparenta de forma alguma seus 61 anos. O jeito descontraído e divertido com que conta suas histórias de cinema faz dele uma ótima companhia – e muitos clientes acabam se tornando amigos pessoais. Convidado frequentemente para recepções nas casas de quem compra suas peças, Afrânio já passou por situações como ouvir um elogio a um sofá da Eurasienne sem que a pessoa soubesse que ele era o importador. “É bom, porque eu não fico com saudade das minhas peças”, brinca.

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