O OUTRO LADO DO EGITO

O OUTRO LADO DO EGITO

MUITO LONGE DOS PROTESTOS DA PRAÇA TAHRIR, AS DAHABIYYAS – EMBARCAÇÕES TÍPICAS DO SÉCULO 19 – CRUZAM O RIO NILO EM UMA VIAGEM DE CINCO DIAS DE LUXO, SOSSEGO E ATRAÇÕES MILENARES.

Egito. Está vendo? A simples menção da palavra já te laça. O Egito faz parte daquela meia dúzia de países que povoa o imaginário de qualquer viajante.
Difícil encontrar quem nunca sonhou em ir para lá. Agora, também é fato que nos últimos anos o país estampa manchetes dos cadernos internacionais graças a golpes de Estado e repressões violentas de manifestações... Sim, tudo isso é verdade, assim como é verdade que são eventos isolados, e que continua sendo possível viajar para um dos principais destinos do mundo há milênios. E o Egito clama por turistas neste momento. Cidades como Luxor e Assuã estão vazias. As pirâmides de Gizé estão vazias. Até a sala 3, do primeiro andar do Museu Egípcio, onde estão a máscara mortuária e os dois sarcófagos de ouro do Tutancâmon, está vazia. Imagine, então, a situação de programas pouco divulgados, jornadas desconhecidas da maioria dos viajantes, travessias que não aparecem no cardápio de agências brasileiras. Por exemplo, já ouviu falar das dahabiyyas?
Trata-se da forma mais espetacular de navegar pelo Nilo. Sério. Pode acreditar. Embarcações típicas do século 19, movidas a vento, um cinema lento e silencioso das margens verdes do rio estreito e das montanhas douradas do deserto. Se o vento para de soprar, um barquinho a motor aparece e reboca o veleiro. A vedete do Nilo atende pelo nome de Meroe – da empresa Nour El Nil, que ao todo tem quatro barcos –, um senhor veleiro com 52 metros de proa a popa, 7,5 metros de largura e 10 cabines, duas delas suítes panorâmicas, na popa, a poucos centímetros da água. Passei o réveillon de 2013 em uma dessas panorâmicas.

tripulaçao
deque
velas

barco

LONGE DAS MULTIDÕES

São cinco noites de viagem. O barco parte de Esna (64 quilômetros ao sul de Luxor) e vai até Assuã. É uma navegação completamente distinta da dos tradicionais, velozes e fumacentos navios que fazem cruzeiros aos montes, com centenas de turistas apinhados em ambientes de ar-condicionado e TV, que baixam âncora todos no mesmo lugar e descem para fazer os passeios todos ao mesmo tempo. A bordo de uma dahabiyya a experiência é outra. É você quem diz onde gostaria de ancorar para aproveitar uma prainha isolada e dar umas braçadas no Nilo. Às vezes a tripulação oferece atividades como ir de barquinho a motor a algumas centenas de metros do veleiro e mergulhar para curtir a correnteza que te traz de volta para a dahabiyya. O itinerário da embarcação para visitar os templos milenares salpicados à beira do Nilo é pensado, claro, para fugir das multidões dos cruzeiros convencionais.

quarto

Para passar a noite, o comandante dá preferência para locações longe de qualquer barulho que não seja o das estrelas. A rotina se divide entre velejar, se embasbacar nas ruínas, degustar refeições excelentes preparadas com ingredientes frescos de fornecedores ao longo do rio, observar o balé da tripulação montando e desmontando as velas, perceber em qual espreguiçadeira o sol está batendo para ler um livro e... fazer nada. Ficar à deriva, na brisa do rio, com o olhar encurralado entre o dourado do deserto e o azul do céu, fazendo absolutamente nada.
Para alcançar Esna, ponto de partida do cruzeiro, é obrigatório para qualquer viajante que se preze passar por Luxor. A quantidade (e o nível) das atrações nos arredores de Luxor é tamanha que quatro dias são um período razoável para conhecer (sem grandes correrias, muitas vezes pedalando) lugares como os templos de Karnak, Luxor, Medinat Habu, Ramesseum, Hatshepsut, Tumbas dos Nobres, Vale das Rainhas e Vale dos Reis – com 63 tumbas do Novo Império (1550-1069 a.C.).

Seja lá qual for a sua preferência arqueológica e o tempo disponível, fique com o melhor hotel: Al-Moudira, na margem oeste. Com o espírito devidamente elevado pelos dias em Luxor, hora de fazer a malas e seguir ao sul para Esna, de onde se zarpa no mesmo dia para o cruzeiro. Antes de subir a bordo, dá tempo de conhecer o templo de Khnum, 9 metros abaixo do nível da rua, já que estava enterrado por 15 séculos de areia. O que se vê foi escavado em 1840, mas ainda há muita coisa coberta. Com cabeça de carneiro, Khhum é um dos mais antigos deuses do Egito – coube a ele modelar a humanidade com a argila do Nilo.
As colunas dos templos impressionam, mas por pouco tempo – no dia seguinte, no segundo desembarque do dia já no cruzeiro, prepare-se para Edfu, onde está o templo de Horus, o deus falcão, um dos mais bem preservados de todo o país (o portal de 36 metros de altura com duas estátuas de granito de falcão é impactante). Começou a ser construído em 237 a.C. e fi cou pronto 180 anos depois. Os outros três dias trazem passatempos como caminhar no deserto, desfrutar o rio (seja na praia, mergulhando ou curtindo a brisa) e visitar lugares como Gebel Silsila (ponto estreito do rio onde eram cortadas as pedras usadas nos templos) e o templo de Kom Ombo (dedicado a dois deuses, Haroeris e Sobek).

NEM PRECISAVA DE ABU SIMBEL

O término do cruzeiro só não é uma tristeza completa pois o desembarque é em Assuã, outro ícone do turismo do norte africano. A cidade conta com um clássico da hospedagem de luxo na África: Sofitel Old Cataract, construído em 1899 – onde Agatha Christie escreveu Morte no Nilo (1937) – e reformado em
2011 (a piscina coberta ficou uma beleza). O Old Cataract, debruçado sobre uma vista incrível do Nilo, é a base para visitar o templo de Isis e investir pelo menos um pôr do sol em um passeio de feluca – outra embarcação a vela tradicional, mas de porte mais modesto. É tanta coisa que nem precisava ter Abu Simbel a menos de uma hora de voo, pertinho da fronteira com o Sudão. O complexo tem dois templos construídos pelo faraó Ramses II entre os anos de 1274 e 1244 a.C. Uma vez diante das estátuas de 20 metros de altura, hora de repassar os grandes momentos da viagem – e é aí que as velas da dahabiyya voltam a inflar na memória e você percebe que carregará a brisa do Nilo para sempre.

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