Design Da Natureza

Design Da Natureza

Uma das principais designers do Brasil, a mineira Etel Carmona mostra os objetos que marcaram sua vida e fala da ligação afetiva com a principal matéria-prima de seu trabalho, a madeira.

Imagine uma menina lá da cidadezinha de Paraisópolis, localizada na Serra da Mantiqueira, interior de Minas Gerais, filha de fazendeiros, com nove irmãos. Uma menina que, desde pequena, só pensava em arte. Não em fazer arte, mas arte mesmo, principalmente feita de madeira.

COLEÇÃO DE CHAPÉUS

Cuidadosamente organizados no seu quarto, cada um tem uma história. “Os estampados eu comprei num povoado peruano. De manhã, a camareira chegou para arrumar o quarto do hotel onde eu estava, usando um. Enlouqueci. Saí pelas ruas do vilarejo procurando um igual. Quando vi, ele estava em todas as vendinhas. Comprei, trouxe pro Brasil, e eles estão aqui.”

A pequena Etel foi crescendo e se perguntando, todos os dias, como transformar em arte, objetos, móveis, aquelas peças de madeira, aquela coisa do mato. Começou a ler, estudar, pesquisar. Passou a tocar na madeira de um jeito especial, carinhoso. “O toque é tudo. Quando passo a mão numa peça de madeira, eu sinto algo diferente, me emociono.”

Foi lá no mato mesmo que começou a dar uma nova forma para as coisas criadas pela própria natureza e acabou se tornando uma das mais respeitadas designers e empresárias do Brasil, dona da Etel Interiores. E o que é melhor: só trabalha com madeira certificada.

Aos 17 anos, Etel mudou-se de mala e cuia pra São Paulo. Mas foi num sítio em Louveira, a 72 quilômetros da capital, que começou a dar asas à imaginação. Quando chegaram os móveis, pensou: “Não gosto disso, é feio”. Foi então que resolveu colocar a mão na massa, restaurando e desenhando tudo.

Com a ajuda de moradores do local, foi montando peça por peça. As pessoas que se juntavam a ela tinham o entusiasmo do tamanho do seu. Cruzou um dia com o que considera um anjo da guarda, o mestre Moacir Tozzo, marceneiro de mão cheia, um artista da madeira. Foi com ele que criou e deu formas a objetos hoje consagrados, como a cadeira Dastânia, por exemplo, conhecida nos quatro continentes. Um exemplar da cadeira está entre os objetos que Etel guarda em seu apartamento no Itaim, e aqui ela revela as histórias de algumas de suas peças mais queridas.

O BANQUINHO DO ACRE

“O banquinho é pequeno, mas bem pesado. Tem uma importância muito grande para mim. Fui eu, com as minhas mãos, que talhei a madeira, pouco a pouco, até chegar a esta forma. Não me esqueço de cada etapa pela qual ele passou até chegar ao que é. Um trabalho que fiz lá no Acre.”

A OVELHINHA QUE ME PROTEGE

“Esta peça minúscula tem uma história. Está comigo há 20 anos. Foi presente de uma amiga, a americana Peggy Silveira. É uma ovelhinha de pedra que tem mais de 800 anos. Isso mesmo! 800 anos. Ela me protege dia e noite. É uma coisa tão preciosa pra mim que nunca deixo ninguém tocá-la. Gosto de fazer reflexões, passando o polegar lentamente nela, tocando com cuidado e sentimento, como fazem os xamãs.

A ENGENHOCA JAPONESA

“É uma das peças mais curiosas que tenho na minha casa. Presente de um senhor japonês, amigo de longa data. Eles fabricam este instrumento bem primitivo, que é utilizado para traçar projetos arquitetônicos. Usam tinta e linha para fazer os traços. O curioso é que, ao terminar a obra, eles oferecem o aparelhinho ao dono da casa, como recordação. É uma tradição deles e eu acho isso muito interessante. Adoro essa peça e a história por detrás dela.”

O QUADRO DE IRACEMA

“Ela assina simplesmente Iracema. A pintora naïf paulista, Iracema Ruffolo Arditi, costumava dizer que o sol verde é a luz que envolve suas paisagens. Este quadro mostra perfeitamente o seu mundo mágico, onde a natureza parece fantasia. Esta obra, que também fica num lugar estratégico da casa, é de 1992. Já são mais de 20 anos iluminando a minha casa e uma amizade que durou tantos anos.”

O PORTA-RETRATOS

“A fotografia que está neste porta-retratos de madeira me traz muitas lembranças boas. Estou aqui com o mestre Moacir Tozzo, um marceneiro muito talentoso, um artista fora do comum. Nesta foto, ele tinha 51 anos, hoje está com 76. Imagine só. Uma foto que tem um quarto de século e que está aqui testemunhando uma história tão bonita de trabalho e inspiração, uma história tão longa.”

CORRENTE DE ENERGIA

“São 54 bolas de cedro que vieram do Acre e foram montadas aqui em São Paulo. É um instrumento de oração, um japamala, que também é usado como técnica de concentração e meditação, ajudando o homem em sua busca pela espiritualidade. Uma corrente de energia utilizada pelos budistas, presente aqui com os meus objetos.”

O SOM VINTAGE

“Todos os amigos que entram aqui logo percebem este aparelho de som com caixas de cor vinho e toca-fitas. É um Bang & Olufsen, de fabricação dinamarquesa, o meu xodó. Tem um som maravilhoso, puro, limpo. Nada melhor para ouvir esse jazz que se espalha pelo apartamento inteiro.”

O ADORNO AXANINCA

“Este adorno feito de grãos e penas coloridas de aves tropicais foi presente de um pajé da tribo dos Axanincas, índios que vivem no Acre, bem pertinho da fronteira com o Peru. Para mim foi uma surpresa ter recebido este presente, já que é um adorno utilizado somente pelos índios do sexo masculino. Não tenho notícia de que outra mulher tenha um deste. Fiquei muito orgulhosa. É belíssimo.”

A CADEIRA NÚMERO MIL

“Sim, a cadeira não está no chão, mas em cima do móvel, no pedestal, como um troféu. Esta cadeira tem um grande significado na minha vida. É a número mil. É uma cadeira Astânia em homenagem a uma parceira e amiga eterna: Tânia Gontijo, mineira como eu. Com um jeitinho de falar das Minas Gerais, virou Astânia. Foi a primeira peça que criei que ganhou tingimento, pigmentação. São várias cores e esta, que guardei aqui com carinho, ganhou a cor vermelha.”

O PANO DE PRATO

“No cantinho, perto da janela, tenho esta obra do designer alemão Ingo Maurer. É um pano de prato inteiramente branco, feito com um tecido muito especial. Ele dá um charme bem particular para este cantinho. Foi um presente que me dei.”

O CÁLICE

“Este pequeno e delicado cálice, esculpido em baraúna, é um presente do Zé Bento, artista genial e amigo do peito. Quando ganhei, dentro dele havia uma imagem de Santo Onofre que, um dia, desapareceu, não sei como. Mas o cálice está comigo há anos, intacto.”

OS DEGRAUS DA VIDA

“Esta obra, que fica bem no centro da minha sala, para ser admirada o tempo todo, é outra escultura em baraúna de Zé Bento. Foi um presente que ganhei em 1994. Na época, ele me contou que a escadaria, feita em etapas até chegar ao topo, era o meu percurso, o caminho que já estava percorrendo e ainda teria de percorrer. Brinquei com ele, dizendo que não sabia em que degrau estava, talvez lá embaixo ainda, mas ele insista que não, que eu já tinha um bom caminho andado. Todos os dias olho para estes degraus e me imagino num deles, sempre subindo, devagarinho, um a um.”

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