ARTE PARA A VIDA

ARTE PARA A VIDA

O legado da presidente emérita do MoMA, Agnes Gund, vai muito além de seu papel como uma das figuras mais influentes da arte contemporânea em Nova York nas últimas três décadas. Ela é fundadora do Studio In A School, um programa que há 35 anos forma parcerias entre artistas e escolas e pelo qual já passaram 800 mil estudantes.

É difícil atentar para as boas maneiras quando a empregada abre a porta do apartamento da Park Avenue. Tente dizer “bom dia, muito prazer!”, conter seu entusiasmo e não avançar pelo salão ignorando o latido dos cachorros e absorvendo a galeria: James Rosenquist, Brice Marden, Ellsworth Kelly, Arshile Gorky, Sol LeWitt, e quem é aquele escultor no canto? Sim, Mark di Suvero. Mas não há tempo de admirar melhor, a anfitriã já tem almoço marcado daqui a pouco.
Agnes Gund é uma das mais influentes figuras da arte contemporânea em Nova York nas últimas três décadas, doadora de centenas das peças presentes na melhor coleção de arte moderna do mundo, a do MoMA, está pensando no seu legado. Fez uma visita à Índia, onde foi satisfazer sua curiosidade pela produção de artistas jovens. Foi presidente emérita do Museu de Arte Moderna, que dirigiu de 1991 a 2002, e tem assento no Conselho Nacional de Artes = por indicação de Barack Obama. Mas o legado de Agnes Gund vai muito além de seu papel como executiva ou das inúmeras obras que ela pretende doar a vários museus.

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Hall de entrada e sala de jantar do apartamento de Agnes Gund.

Em 1977, quando Nova York estava à beira da falência e as escolas públicas tinham perdido a verba de educação artística, ela fundou o Studio In A School, um programa que forma parcerias entre artistas profissionais e escolas e pelo qual já passaram 800 mil estudantes nova-iorquinos. O Studio In A School se tornou um modelo de presença das artes plásticas num ambiente de ensino público que é geralmente avesso a aulas de desenho, pintura ou escultura.

TESOURO PARTICULAR

UM PASSEIO PELO PRECIOSO ACERVO DA COLECIONADORA AGNES GUND REVELA UM MIX DE ARTISTAS ACLAMADOS E TALENTOS EMERGENTES.

James-Rosenquist

JAMES ROSENQUIST

Contemporâneo de Andy Warhol, o pintor e escultor americano de 78 anos é um dos pais da pop art. Seus trabalhos trazem objetos inusitados como fragmentos de carro, a exemplo da tela President Elect (1961-1964).

Ellsworth-Kelly

ELLSWORTH KELLY

Apóstulo de Henri Matisse e adepto do minimalismo, Kelly (1923) é um dos nomes mais venerados da arte abstrata americana. Muitas de suas telas, desenhos, fotografias e colagens que produziu entre as décadas de 40 e 90 retratam as formas da natureza.

Arshile-Gorky

ARSHILE GORKY

Com um grupo de colegas da New York School, que incluía Jackson Pollock, esse pintor armênio (1902-1948) ajudou a criar o conceito do expressionismo abstrato, nos anos 40.

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MARK DI SUVERO

Marco Polo di Suvero nasceu na China em 1933, de pais italianos, e cresceu nos Estados Unidos. As obras dele são monumentais, feitas com vigas de aço, e parte delas está no parque Socrates, criado pelo artista, no Queens, em Nova York.

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TAMARA GAYER

Aos 42 anos, Tamara já expôs instalações, desenhos e vídeos no MoMA, além de fachadas de prédios na Nova York natal. Sua especialidade: obras em grandes dimensões que retratam paisagens urbanas e formas abstratas.

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TERENCE KOH

Definido como “The asian punk boy”, o artista chinês de 31 anos radicado em Nova York cria esculturas exuberantes identificadas com a cultura underground e suas memórias de infância.

A seguir, Agnes Gund fala à Private Brokers sobre filantropia, testamento e seu prazer de frequentar os artistas que coleciona – só na casa de campo em Kent, o escultor Richard Serra pode visitar sete de suas peças, enquanto desfruta da hospitalidade de sua colecionadora e amiga.

Há colecionadores de arte famosos que têm personalidade forte. A fama de suas coleções se mistura com a fama pessoal. No seu caso, a senhora é mais conhecida pelos artistas que coleciona.

"É um ponto interessante. Minha personalidade é muito embutida no que coleciono. Você deve ter notado que não coleciono nenhuma obra violenta, perturbadora ou imagens muito pesadas, apesar de gostar muito de artistas como [Francis] Bacon. Acho que meu interesse em arte é mais minimalista e pictórico, em oposição a, por exemplo, alguém dando tiros [risos] ou explorando alguma mitologia de violência sexual. Eu não tenho interesse nesses temas. E gosto de ter me tornado amiga de vários artistas. Conhecer bem o artista cuja obra coleciono é muito importante para mim. Na minha casa de campo, tenho sete peças de Richard Serra e hoje me relaciono bem com ele e sua mulher, Clara. É o mesmo caso com Martin Puryear, Ellsworth Kelly, Jasper Johns. [O artista búlgaro] Christo, nós nos conhecemos há muito tempo. Mas a amizade pessoal não é a origem do interesse pela obra. Faz com que o objeto de arte ganhe uma dimensão nova para mim."

É importante colecionar arte com a qual consegue conviver?

"Sim, mas claro que tenho muita coisa em depósito. Nós emprestamos a instituições, temos enviado muitas peças ao Cleveland Museum. O Brice Marden que está aqui acabou de voltar, tomou o lugar do Sigmar Polke."

Há alguém novo na sua vida?

"[Risos] Há muitos. Uma amiga minha, Kim Hastreiter, que é editora da revista Paper, me apresentou a muita gente interessante. Há esta artista que está em outra parede aqui, Tamara Gayer. Gosto muito do Oliver Smart, que trabalha com marionetes. Vito Schnabel, marchand, também conhece todo mundo. Através dele, conheci o trabalho de Terence Koh e comprei uma peça do artista para o MoMA."

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Abaixo, ao lado do marido, o advogado Daniel Shapiro. Acima, com o artista Jeff Koons. Em jantar no MoMA, David Rockefeller ladeado por Agnes Gund e Patricia Cisneros.

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A senhora tem tomado novas decisões sobre o que vai doar e quais as instituições beneficiadas?

"É um processo que está sempre em evolução. Antes de embarcar para a Índia, eu revisei meu testamento. Lembro que não vai tudo para o MoMA. Eles já têm uma quantidade grande de obras doadas por mim. Claro que vou continuar doando para o MoMA, mas há outros museus nos meus planos. Este aqui, por exemplo, vai para alguma outra instituição [mostra o Jasper Johns atrás dela, no sofá]."

“GOSTO DE TER ME TORNADO AMIGA DE VÁRIOS ARTISTAS. ISSO FAZ COM QUE O OBJETO DE ARTE GANHE UMA DIMENSÃO NOVA PARA MIM."

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A senhora aprecia o efeito da internet no mercado da arte?

"Sim! Acho que a internet trouxe grandes oportunidades para artistas jovens e desconhecidos. Aumenta as chances de que recebam visitas no estúdio porque alguém descobriu on-line o trabalho. E há as exposições que geram convites para os artistas aparecerem em exposições não virtuais. Mas acho que a situação ainda é muito difícil para os artistas. Eles são relegados por causa dos nomes quentes. Se você não é o artista quente do momento, ligado às galerias mais poderosas, não prestam atenção. E, se você é mais velho, e mulher, pior ainda. Há tantos artistas bons ignorados. Mesmo se você consegue uma boa exposição. Agora mesmo há uma ótima do pintor Terry Winters em Manhattan. Ele é bem representado, mas, mesmo assim, se não está no circuito de galerias quentes, a imprensa não escreve críticas, o trabalho não é divulgado. Daqui a pouco, vou almoçar com uma artista maravilhosa de 81 anos e ela anda esquecida."

AO LADO, AGNES GUND COM OS ARTISTAS CHRISTO E JEANNE-CLAUDE (DE COSTAS), O CURADOR GORDON J. DAVIS (À ESQUERDA) E MARTIN SEGAL, ENTÃO PRESIDENTE DO LINCOLN CENTER, DURANTE ENCONTRO NA DÉCADA DE 1980, EM NOVA YORK.

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A falta de uma geração de críticos influentes ou mesmo a perda de influência da crítica agravou a situação?

"Acho que houve uma redução de espaço. Há menos gente nesse campo, informando o público, servindo de guia para o novo trabalho. Há menos jornalistas que fazem esse papel de apontar o que não está em evidência. Imagino que não haja escassez de artigos sobre as bolinhas do Damien Hirst. Afinal, comecei a ler artigos sobre Carrie Moyer [pintora que vive no Brooklyn], fiquei feliz. Comprei uma pintura dela para a casa de campo. Gosto tanto do trabalho dela, mas, durante anos, não li nada sobre a Carrie."

Quando começou sua coleção, a senhora já tinha uma educação artística. O quanto é importante para o colecionador ter uma formação cultural em artes plásticas?

"Eu acho que a educação formal faz muita diferença para formar uma coleção. Mas, é claro, qualquer um pode colecionar. Uma coleção não precisa ser cara. Você pode, por exemplo, colecionar ninhos de pássaros. O fato é que uma coleção de arte é a seleção da inteligência visual do colecionador. Quando temos que conviver diariamente com a obra de arte, temos mais interesse em compreender, por exemplo, por que uma obra é mais artística do que a outra. Não tenho nada contra o autodidata, mas, no meu caso, foi útil ter feito um mestrado em história da arte – ele tornou mais intensa a minha reação a certas obras."

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Como a senhora concebeu o modelo de parceria entre escolas e artistas plásticos do Studio in a School?

"Nos anos 70, Nova York tinha praticamente eliminado os programas de arte no primeiro grau, e eu quis me movimentar, com a ajuda de duas pessoas no sistema de educação pública na época, Pat Hewitt e Georgie Alexander Greene. Nós elaboramos juntos o modelo da parceria e ela foi testada em três escolas, em Manhattan e no Queens."

Depois de tantos anos em Nova York, como a senhora vê a evolução da riqueza ligada à filantropia na cidade?

"Eu não acho, por exemplo, que a origem da fortuna afeta a disposição para a filantropia. Mas, sem dúvida alguma, acho que, quando a pessoa compreende o efeito de sua filantropia para a comunidade, isso afeta o interesse em continuar se comprometendo com ela a longo prazo e seu entusiasmo para colecionar. No fim das contas, a filantropia em arte é um reflexo dos valores do colecionador."

Então, como defender a educação artística em tempos de crise, especialmente entre alunos de famílias pobres?

"Estudar arte faz com que a criança tenha resultados melhores em outras matérias e aumente sua perspectiva de vida. Crianças que têm chance de desenvolver aptidões artísticas estendem sua qualidade visual, expressiva, solucionam problemas com mais facilidade. É uma delícia observar, nas sessões do Studio In A School, o quanto elas desfrutam do aprendizado. Quanto às crianças menos favorecidas, meu argumento é ainda mais enfático, já que elas têm menos chance de ser expostas a qualquer tipo de arte visual. A criança que se familiariza com a arte se valoriza mais, tem mais autoconfiança."

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