Arquitetura musical

Arquitetura musical

Filho e neto de arquitetos, Marcelo Bratke construiu uma premiada trajetória como pianista. Nascida no Morumbi, ele vive com a mulher entre São Paulo e Londres, mas mantém aqui os seus objetos preferidos.

Os olhos do pianista Marcelo Bratke, 54 anos, nem sempre viram o mundo da forma como ele o enxerga hoje. Comprometida por doenças congênitas (catarata e ambliopia, um desligamento do nervo ótico), sua visão era de apenas 2% no olho direito e 7% no esquerdo – o que lhe permitia apenas uma vaga impressão de objetos e paisagens à sua volta. Duas cirurgias feitas nos Estados Unidos mudariam seu mundo. “A operação foi há dez anos, mas ainda me surpreendo com as formas e cores.” A primeira imagem que saltou aos novos olhos de Marcelo foi o rosto da mulher, a artista plástica Mariannita Luzzati. “Eu não lembrava que ela é tão bonita.” Os dois namoram desde que ele tinha 18 anos – e ela ainda iria completar 15.

O mundo das imagens rivaliza com dos sons na preferência do pianista. Neto de Oswaldo Bratke, arquiteto que projetou, entre outras casas famosas, a que abriga a da Fundação Maria Luiza e Oscar Americano, no Morumbi, Marcelo chegou a cogitar a carreira do avô – que é também a do pai, Roberto, e do tio, Carlos, ambos conhecidos por terem projetado e construído parte dos prédios da avenida Luís Carlos Berrini.

Marcelo estudou arquitetura por três anos antes de se dedicar totalmente ao piano, numa decisão que seria irrevogável aos 28 anos, depois de uma consagradora apresentação no festival de Salzburg, na Áustria, onde nenhum brasileiro havia tocado antes. Seu primeiro concerto, aos 16 anos, foi com a Osesp, então regida pelo maestro Eleazar de Carvalho, no Teatro São Pedro. “Fiquei famoso da noite para o dia. Três jornais publicaram críticas elogiosas. E o Eleazar me deu dicas que servem até hoje.”

No último ano, à frente da Camerata Brasil, percorreu o país em apresentações que lançam um olhar erudito sobre a obra de Dorival Caymmi. O CD com a gravação desse trabalho deve chegar às lojas até o final do ano. Até lá, Marcelo voltará a gravar as obras completas para piano de Villa-Lobos.

Desde setembro de 2013, Marcelo e Mariannita vivem entre São Paulo e Londres, onde mantêm um apartamento com vista para a Saint Georges Square, em Pimlico. Mas é aqui, no apartamento de cobertura no Real Parque, prédio construído por seu pai no Real Parque, com uma bela vista do Morumbi, que ele guarda seus objetos mais preciosos.

O PIANO DA SALA

"Eu tinha um Steinway&Sons, modelo de 1929. Gostava muito, mas era velho demais e eu estava cansado dele. Um dia, fiz um concerto com a Sandy (irmã do Junior) e usei este piano, que havia acabado de chegar do Japão. Ele fora locado para a apresentação e eu gostei dele. Foi um objeto de desejo que pude comprar. É um Yamaha C7, três quartos de cauda.

O RELÓGIO DE SOL DE BOLSO

“É uma bússola com relógio de sol portátil, de bolso. Um dia meu avô me deu e falou: ‘Marcelo, esta é coisa mais importante que eu tenho. Foi do meu pai’. Ficou para mim, com a lembrança de ter sido algo precioso para eles dois."

O GALHO DE CAMPOS DO JORDÃO

“Quando eu era pequeno, ia muito à chácara do meu avô, em Campos do Jordão, perto do Horto. Foi o caseiro dele, João Julião, que me apresentou à música sertaneja. Ele ouvia Tonico e Tinoco, essas coisas. Eu tinha 5 anos quando, passeando com meu avô, encontramos este galho no chão. Ele recolheu e fez esta obra.”

O XEROX DE DAVID HOCKNEY

“A gente passou um fim de semana com o artista plástico inglês David Hockney e amigos em Salisbury, no interior da Inglaterra, e ele começou a desenhar as pessoas em seu bloco, usando guache. O retrato da Mariannita ficou muito bonito. Mas ele enfiou no bolso e guardou. Depois, nos mandou uma cópia em xerox. Claro que o original valeria uma nota. Como ele tem trabalhos em que usa fotocópia, talvez este também tenha algum valor, mesmo não sendo o original. De qualquer forma, nos sentimos muito prestigiados com a homenagem.”

O QUADRO DO VULCÃO

“Faz parte de uma série de vulcões que Mariannita expôs no MAC. É uma força da natureza e tem muito a ver com ela. Profunda. Eu também carrego os quadros dela de Londres para cá, de um lugar para o outro, e esse marcou muito, porque ela pintou na época em que nós começamos a morar juntos. Eu nunca deixei que ela vendesse. Nem vou deixar.”

O RETRATO À ITALIANA

“Esta foto da Marinnita com a irmã mais velha, Consuelo, feita pela Lucy Carneiro, tem um clima meio Luchino Visconti e, para mim, simboliza as histórias da família Luzzati, um mistério que veio da Itália. E mostra bem o caráter da Mariannita.”

O PERNALONGA

“Quando criança, eu tinha um Pernalonga de pelúcia, de 1 metro de altura. Toda noite, minha mãe me colocava na cama para dormir, junto com ele, e contava uma história. Um dia, ganhei um tigre, que tomou o lugar do Pernalonga. Mas eu acordei triste por ter abandonado o meu velho amigo. Antes de minha mãe morrer, em janeiro de 2013, ela soube de uma promoção do McDonald’s, que estava dando miniaturas do Pernalonga de brinde. Ela não comia hambúrguer, mas foi até lá comprar um milkshake só para ganhar o Pernalonga e trazer para mim. Foi o presente mais bonito que ela me deu – por lembrar a minha infância e pelo gesto carinhoso, ainda mais nas condições em que ela estava, com a saúde já debilitada.”

OS PROGRAMAS DO CARNEGIE HALL

“Foram meus concertos mais importantes, pela aura do lugar e pela repercussão que trouxeram, com crítica na capa do The New York Times e casa lotada. O primeiro concerto que fiz depois que voltei a enxergar foi marcante, porque pela primeira vez eu pude ver o rosto das pessoas. Antes, eu só ouvia um burburinho, nem sabia se a plateia estava lotada. Aquilo me dava uma certa insegurança. Quando pude ver os rostos das pessoas felizes esperando pela minha música, isso me tranquilizou.”

A CADEIRA-MAQUETE

“Meu avô criou este projeto em 1948 com a ideia de fazer um móvel muito barato. Ela é de compensado, com um parafuso no meio que trava os pés e o encosto. Apesar de o projeto ser antigo, ele só foi executar no final da vida. Fez quatro peças e me deu. Depois, a Etel Carmona lançou 104 peças, em homenagem aos104 anos do meu avô. Ela me deu duas, e nós usamos as seis na sala de jantar. A cadeira chegou a ser exposta no Centro Georges Pompidou, em Paris.”

O PRIMEIRO CD

“Eu demorei para gravar, embora já tivesse prêmios internacionais, e esta foi a minha estreia em CD, aos 30 anos. Ele abriu as portas para que a minha música passasse a ser mais conhecida, tocando até no rádio, principalmente em Londres, e desde então eu gravo dois CDs por ano.”

A VISTA DA JANELA

“Esta janela não estava no projeto original do prédio, que foi construído pelo meu pai. Quando eu subi aqui, ainda durante a obra, esta parede ainda não estava fechada. Eu amo arquitetura, meu pai é arquiteto também, mas me influenciou muito na direção da música por achar que seria difícil para mim, enxergando mal, exercer a arquitetura. Mas, quando eu cheguei aqui no apartamento e vi a vista, pedi para deixar um vidro fixo, em vez de uma parede. Meu pai topou e a paisagem está aí. Todo mundo que entra fica encantado. O prédio permite isso, pois os apartamentos não são idênticos.”

O CACHIMBINHO

“Foi do meu tataravô, que era da Silésia, hoje parte da Polônia, e passou de pai para filho até chegar a mim. Como eu não tive filhos, ainda não pensei para quem irei deixar.”

OS DESENHOS DO AVÔ

“Coloquei nesta parede apenas desenhos e ilustrações dos projetos dele, Oswaldo Arthur Bratke. A casa que construiu para morar, a casa que fez para o casal Maria Luiza e Oscar Americano, onde hoje funciona a fundação, o hospital infantil do Morumbi e as cidades que ele projetou no Amapá: Vila Serra do Navio (onde nasceu a Fernanda Takai) e Vila Amazonas. Essas foram as grandes realizações dele como arquiteto. Projetou desde os rodapés das casas até as praças e ruas das duas cidades, que foram concebidas para acomodar funcionários de empresas de mineração.”

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