Cine Belas Artes

Cine Belas Artes

DEZ FOTOS/ UMA HISTÓRIA

O Belas Artes já teve sete vidas. Inaugurado na Rua da Consolação na década de 1950 como Cine Trianon, sobreviveu a muitas tentativas de extinção, mudou de donos e de nomes, foi parcialmente destruído por um incêndio, teve as portas fechadas por três anos e voltou a funcionar como um dos mais charmosos e cultuados cinemas de rua de São Paulo.

1/ O PROJETO

Nascido em 1906 em Milão e naturalizado brasileiro na década de 1950, o arquiteto Giancarlo Palanti trabalhava na Construtora Alfredo Mathias quando desenhou o conjunto formado pelos edifícios Chipre e Gibraltar, na esquina da avenida Paulista com a rua da Consolação. O projeto, concebido originalmente em 1952, previa um condomínio residencial com lojas no térreo e um cinema contíguo. Com o alargamento da Consolação, segundo um decreto de 1950, o proprietário do terreno foi desapropriado em 272 metros quadrados, o que fez desaparecer parte da área destinada ao cinema. Um novo projeto alterou completamente o anterior. No desenho usado na construção, lâminas de concreto cobriam parte da fachada do cinema e se projetavam sobre o edifício de apartamentos vizinho. A marquise fora pensada para fazer uma mediação entre o acesso do edifício e a calçada. Em uma das várias reformas que o cinema sofreu, o letreiro “Desde 1952” seria acrescentado sobre a marquise. A data não corresponde à construção do cinema, e sim ao ano de seu projeto original. Em 15 de outubro de 2012, o edifício foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado (Condephaat).

o-projeto#

2/ AS FACHADAS

Depois de 11 anos funcionando como Cine Trianon, uma primeira reforma do prédio e das instalações foi feita pela Cia. Serrador com o apoio da Associação Brasileira de Desenho Industrial. O cartaz colocado na fachada durante o período de reforma anunciava o novo cinema da Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC) prometendo “espetáculo, polêmica e cultura para o público paulistano”. Outras alterações dentro e fora do cinema seriam feitas nas décadas seguintes. Em 1967, o espaço foi rebatizado, ganhando o nome de Belas Artes. Em 1970, a sala original foi dividida em duas: Villa-Lobos e Cândido Portinari. Cinco anos mais tarde, uma terceira sala, batizada de Mario de Andrade, foi aberta no subsolo. A obra que recuperou o cinema depois do incêndio de 1982 criou as seis salas que permanecem ainda hoje. Aos nomes de artistas brasileiros que já haviam sido homenageados anteriormente, somaram-se os de Carmem Miranda, Oscar Niemeyer e Aleijadinho. O cinema, então controlado pela distribuidora francesa Gaumont, mudaria de mãos – e de fachada – mais três vezes. Foi comprado pela empresa de exibição Alvorada, que o arrendaria para os sócios do que hoje é o Estação, grupo responsável por profissionalizar o circuito de cinemas de arte no Rio de Janeiro. Mas nem mesmo essa tentativa de resgate funcionou. O cinema da Consolação já estava à beira da falência quando o arquiteto Roberto Loeb e a jornalista Sonia Russo criaram o Movimento Viva o Belas Artes, no final de 2002. “Nosso foco é preservar todo esse cruzamento entre as avenidas Paulista, Rebouças, Consolação e Dr. Arnaldo”, afirmou Loeb na ocasião. O anúncio de que o cinema estaria prestes a fechar sensibilizou outros interessados por uma nova sociedade, liderada pelo cineasta André Sturm em parceria com os donos da produtora O2 Filmes, Fernando Meirelles, Andrea Barata Ribeiro e Paulo Morelli. Reformado novamente, o cinema reabriu em maio de 2004 como Cine HSBC Belas Artes. A reforma de 2014, com projeto do escritório Loeb Capote (que também assinou a anterior, em 2003), deu a configuração atual do Cine Caixa Belas Artes, com a fachada em azul-escuro substituindo o antigo tom vermelho.

3/ AS PRIMEIRAS SESSÕES

Marilyn Monroe não estava lá. A estrela de Os homens preferem as loiras, dirigido por Howard Hawks em 1953, teria parado o trânsito paulistano, mas seu nome nem sequer aparecia nos letreiros daquela tarde de sábado, 14 de julho de 1956, em que o Cine Trianon abriu as portas para o público. O dono do imóvel, Phelippe Azer Maluf, alugara a sala dois anos antes da inauguração para a Cia. Cinematográfica Serrador Ltda., que já administrava cinemas como Art-Palácio e Ópera. Na primeira sessão, a fita em cartaz era Eles se casam com as morenas, uma tentativa de dar continuidade ao sucesso de Marilyn, desta vez estrelada por Jane Russell e Jeanne Crain, com direção do inexpressivo Richard Sale.

as-primeiras-sessões-do-cine-Belas-Artes#

4/ O ENTRONCAMENTO

“Angélica/ Entre você e a Augusta/ Eu encontrei a Consolação”, cantou Tom Zé Ainda que não tenha sido imortalizada nos versos de um samba de Caetano Veloso como a esquina da Ipiranga com a avenida São João, o apreço por esse ponto simbólico da vida cultural na cidade foi materializado num singelo “objeto de desejo”. Uma réplica dessa esquina, em uma maquete para montar, foi criada pela dupla de designers Yana Parente e Thomaz Rezende. As cem unidades feitas de papel cartão foram colocadas à venda na lojinha do cinema. O cruzamento de nível que existia no passado foi extinto na obra que derrubou um quarteirão de moradias para a construção do complexo de túneis e viadutos que interliga as avenidas Paulista, Consolação, Rebouças, Dr. Arnaldo e Major Natanael. Construído em 1972, ele é em parte uma obra de arte paulistana: suas paredes ganharam grafites que ocupam 430 metros. Uma passagem subterrânea para pedestres conecta as duas calçadas da Consolação – de um lado, a do Belas Artes; de outro, a do Riviera, bar que também viveu seus anos de abandono até ser reaberto por Alex Atala (chef e dono do D.O.M) e Facundo Guerra (do Grupo Vegas).

5/ ONDE A MAGIA ACONTECE

Enclausurado em uma pequena sala, atrás do buraco na parede por onde passa a luz que estampa imagens em movimento na tela, um espectador solitário garante a diversão da plateia. O projecionista é a estrela silenciosa do espetáculo. Quando o Cine Trianon foi inaugurado, com uma única sala, a projeção era feita por meio de aparelhos da marca Simplex fornecidos pela distribuidora R. Ekerman. A tela panorâmica da sala podia receber imagens dos três sistemas usados na década de 1950: o CinemaScope, criado pela Twentieth Century Fox para filmes no formato widescreen, que definiria o padrão dos cinemas a partir de então; o VistaVision, lançado pela Paramount Pictures e que seria precursor dos cinemas Imax; e o SuperScope, novidade da época que chegaria às telas no western Vera Cruz, com Gary Cooper e Burt Lancaster. Hoje, os projetores digitais abandonaram os antigos rolos de 35 milímetros. Quatro dos antigos projecionistas foram recontratados pela atual gestão. A foto mostra a sala de projeção em 1983.

os-equipamentos-de-projeção#

6/ INCÊNDIO

Na madrugada de 10 de maio de 1982, o quartel do Corpo de Bombeiros na rua da Consolação, 1.663, foi acionado para controlar um incêndio poucas quadras acima. Era o Cine Belas Artes que estava em chamas. O fogo, que começou na sala Portinari, avançou pela Villa-Lobos. Vedado por paredes de concreto, o edifício dificultava a ação dos bombeiros. Para a perícia, o incêndio foi criminoso. O cinema não estava funcionando quando o fogo começou e tanto as portas quanto o cofre foram arrombados. Pela manhã, ainda era possível acompanhar o trabalho de rescaldo. A necessidade de reformar as salas atingidas acabaria resultando no redesenho completo do cinema. Em 1983, antes que os multiplex entrassem na moda, o Belas Artes voltaria a funcionar com seis salas e sob administração da francesa Gaumont.

o-incêndio

7/ UM CINEMA DE ARTE

Os nomes do alemão Rainer Werner Fassbinder, do francês Claude Lelouch, do italiano Marco Ferreri, do polonês Andrezj Wajda e dos brasileiros Hermano Penna e Denoy de Oliveira só costumam aparecer juntos em livros de história do cinema. No Belas Artes da década de 1980, eles estavam lado a lado nos cartazes que anunciavam a programação. Foi justamente naquela época que os filmes entraram na vida do ainda adolescente André Sturm – o homem por trás de duas salvações do cinema, em 2004 e em 2014. “Não é apenas um negócio, ele faz parte da minha vida”, diz Sturm. A ideia de um cinema de arte surgiu depois da bem-sucedida experiência da Cia. Serrador, dirigida por Fiorentino Llorente, com sessões especiais nos cinemas Scala, na rua Aurora, e Picolino, na rua Augusta. Também diretor da Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC), criada em 1962, Llorente percebeu que o interesse do público paulistano por filmes de arte justificaria dedicar integralmente ao gênero um dos cinemas do grupo. “O filme de arte, que, antes, era um verdadeiro tabu para o exibidor, hoje é até mesmo solicitado por uma plateia em formação que, em matéria de qualidade artística, é mais exigente”, afirmou o exibidor ao anunciar a vocação do Belas Artes – onde funcionou, por um tempo, a secretaria da SAC.

um-cinema-de-arte#

8/ O CAMPEÃO DE BILHETERIA

O diretor francês Alain Resnais completaria 92 anos no dia 3 de junho de 2014. Morreu meses antes, em Paris, no dia 1º de março. Sua obra entrou para a história por filmes como Hiroshima mon amour (de 1959, adaptação do livro de Marguerite Duras) e O ano passado em Marienbad (1961). Ambos são cultuados tanto pela temática, que evoca o tempo e a memória, quanto pela complexidade. Ao longo de três anos e meio, de 2006 a 2010, quem passava em frente ao Cine Belas Artes poderia comprar um ingresso para assistir a um filme de Resnais, Medos privados em lugares públicos, que aborda as dificuldades de relacionamento de seis personagens. Distribuído pela Pandora Filmes, empresa do cineasta André Sturm, que assumiu a direção do Belas Artes em 2003 e agora volta a comandar o cinema, o filme fez sucesso na base do boca a boca. Depois de permanecer um ano em exibição, a bilheteria aumentou de maneira espontânea, e a fita manteve seu espaço cativo na programação, tornando-se o filme que ficou mais tempo em cartaz na história do cinema.

9/ ABANDONO

Quando fechou as portas, em 2011, o Belas Artes já havia perdido o patrocínio do banco HSBC. O reajuste no valor da locação pedido pelo proprietário foi o tiro de misericórdia no projeto iniciado anos antes por André Sturm e pelos sócios da produtora O2 que investiram no renascimento do cinema em 2004. O Movimento Cine Belas Artes (MBA), criado depois das três passeatas em janeiro de 2011 em protesto contra o fechamento do cinema, entrou com um processo no Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp) pedindo o tombamento do prédio no âmbito municipal. A partir do blog Quero Belas Artes aqui e do aplicativo Causes no Facebook, foram reunidas mais de 100 mil assinaturas pela preservação do cinema, entregues ao secretário municipal da Cultura, Juca Ferreira. Nos três anos em que o imóvel ficou sem uso (entre o início de 2011 e a reforma para a reabertura em 2014), suas paredes e portas de vidro foram grafitadas. Numa alusão ao cineasta italiano cultuado pelo público que fazia filas naquelas calçadas aguardando ingressos para ver um filme, uma frase quase poética resumiu o abandono e o vazio deixado pela ausência do Cine Belas Artes: “Pasolini passou aqui”.

abandonado#

10/ NOVA GERAÇÃO

Filha do cineasta André Sturm, diretor do Museu da Imagem e do Som, Barbara Sturm estudava moda quando começou a trabalhar na Pandora, a distribuidora de filmes de arte criada pelo pai. Em 2008, Barbara acumulou a função de programadora do Belas Artes – comandado por André de 2004 a 2011, quando fechou, e novamente agora. “Em janeiro, quando a gente assinou o contrato de patrocínio com a Caixa, o Fernando Haddad [prefeito de São Paulo] deixou claro que o cinema era querido do público por causa da administração do meu pai”, lembra, orgulhosa. A prefeitura, por meio da Caixa Econômica Federal, garante o pagamento do aluguel, em um contrato de um ano renovável por mais cinco. Para as outras despesas, que incluem 35 funcionários, as contas de água, luz e toda a operação, o cinema depende da bilheteria. “Na segunda-feira nós levantamos a renda do fim de semana e avaliamos que filmes devem continuar e quais devem sair. A gente tenta ter filmes exclusivos sempre e tem dado certo. Alguns ficam oito semanas, o que é bastante.” No Noitão, três sessões varam a madrugada, da meia-noite às 6 da manhã. Depois, é servido um café. “São experiências cinematográficas”, afirma Barbara, 25 anos, que procura manter nas salas o mesmo clima de antes de o cinema fechar.

Compartilhar