Casa Santa Luzia

Casa Santa Luzia

DEZ FOTOS/ UMA HISTÓRIA

De pequeno armazém de secos e molhados a Templo Gourmet Paulistano, a loja inaugurada há quase nove décadas na esquina das ruas Oscar Freire e Augusta assistiu ao crescimento da região dos Jardins. Hoje instalada na Alameda Lorena, a casa se preserva como sonhou seu fundador: ÚNICA!

1/ O EMPÓRIO

Treze de dezembro, Dia de Santa Luzia. Na esquina das ruas Augusta e Oscar Freire, era inaugurado, em 1926, um empório peculiar, montado na área onde antes funcionava uma tinturaria. São Paulo crescia como nunca -- nas três primeiras décadas do século, saltou de 240 mil habitantes para mais de 1 milhão -- e a região dos Jardins começava a ser pontilhada com vistosos casarões e palacetes. Ali viveriam famílias de empresários e fazendeiros ávidos em reproduzir os costumes europeus no Brasil. O empório recém-aberto, com decoração luxuosa, vidros bisotê, esquadrias de mármore e madeira de lei nas prateleiras, virou ponto obrigatório da classe endinheirada, que passou a cultivar, ali, seus novos hábitos alimentares. Com os anos, o lugar também atrairia imigrantes de toda parte: portugueses, espanhóis, italianos, alemães, poloneses, judeus, entre muitos outros. “Cada qual com seus apetites, seu modo de comer, suas saudades, o paladar se misturando num só. O empório queria agradar aos clientes”, registrou Nina Horta no prefácio do livro Santa Luzia - A história de uma marca da gastronomia paulistana.

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2/ O FUNDADOR

O novo empório foi idealizado por um imigrante que havia desembarcado no Porto de Santos em 1913. Daniel Lopes tinha então 23 anos e chegava de Figueiró dos Vinhos, no centro de Portugal, com a família. Do litoral, seguiu para o interior paulista, onde, passando por várias cidades, comercializou cereais, tornou-se empreiteiro, casou-se e teve dois filhos. Ao se instalar na capital, no início dos anos de 1920, comprou uma pequena mercearia, o Empório Nazário, na esquina da rua Augusta com a Marquês de Paranaguá, na região central. Mas não demorou para que Lopes percebesse oportunidades em uma área não muito distante dali. Certa vez, caminhando pela avenida Paulista, avistou a formação de um novo bairro ao sul, loteado pela Companhia City. Era a região dos Jardins, que passaria a abrigar a elite paulistana emergente, com todos os benefícios disponíveis na época. O imigrante se encarregou de preencher a última lacuna: faltava ali, apenas, um armazém.

3/ VARIEDADE

No início do século passado, a chegada da eletricidade e do fogão a gás mudou o padrão das cozinhas e exigiu o domínio de novas técnicas. Essas décadas de profundas transformações na vida doméstica paulistana se refletiram nos padrões de consumo e hábitos alimentares da população. Os empórios começaram a receber os primeiros alimentos industrializados, como banha enlatada, fermento em pó, aveia em flocos e amido de milho. Atento às necessidades do consumidor, Daniel Lopes fazia uma verdadeira curadoria de produtos. Muitas vezes, os próprios clientes estimulavam a importação de ingredientes europeus ou norte americanos, que aparecem na lista de preços da década de 1930: lagosta, salmão, ostras inglesas, atum italiano, a centenária mostarda inglesa Colman’s e vinhos como Madeira, Sauternes e o Champagne Veuve Cliquot. Boa parte à venda até hoje na Casa Santa Luzia.

4/ O PRIMEIRO CARRO

Durante a Segunda Grande Guerra, com os produtos racionados, a loja operava com sistema de cotas e enfrentou um de seus períodos mais difíceis. Sem um veículo apropriado para transportar mercadorias até então, a casa enfim adquiriu, em 1946, um furgão de aço para fazer as compras na Zona Cerealista e no Mercadão. Nessa época, os bondes começaram a ceder lugar aos ônibus elétricos, às lambretas e aos carrões coloridos. A rua Augusta, por sua vez, já se firmava como o eixo mais importante entre a avenida Paulista e os bairros nobres que cresciam nas imediações -- um passeio, portanto, obrigatório. Para atender à nova demanda de consumidores, um comércio moderno e elegante se alastrou por sua extensão. E a Casa Santa Luzia acabou ganhando vizinhos como livrarias, casas de chá, butiques e salões de beleza, que se proliferaram na cadência do progresso da cidade.

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5/ NOVOS SÓCIOS

Na década de 1950, Daniel Lopes começou a ceder espaço para a nova geração da família. Abriu sociedade em 1952, repartindo o comando da Casa com outros quatro sócios. Dois deles se assemelhavam no espírito desbravador: o primeiro, Antonio Lopes da Silva, cunhado da tia de Daniel, ficou com o controle das finanças junto com o genro do fundador, João Nunes Pereira. O outro, Jorge da Conceição Lopes, sobrinho de Daniel, encabeçava o atendimento ao cliente, gerenciando também as entregas. Por fim, Álvaro, filho de Daniel, cuidava das compras, escolhendo frutas e verduras no mercado, lidando com fornecedores e frequentando consulados em busca de produtos importados. A divisão foi tão bem estruturada que, em meados dos anos 1960, o fundador já não via mais necessidade de continuar diretamente ligado à loja. E, já perto dos 70 anos, mudou-se para um sítio em Bragança Paulista, onde passou a cultivar uvas e produzir vinhos. Nessa fase, a loja contava com mais de 20 funcionários e promovia sua primeira reforma.

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6/ CADERNETA DE CREDIÁRIO

Em uma época em que o cartão de crédito sequer sonhava existir, a caderneta dava conta dos crediários, sobretudo em armazéns e mercearias. Ali eram registradas todas as compras do cliente que, no fim do mês, conferia a lista e acertava o pagamento. Era uma relação de confiança que reforçava a fidelização ao longo de décadas, estendendo-se a várias gerações de clientes. Já em tempos de inflação desenfreada, a caderneta e seu pagamento a prazo tornaram-se inviáveis e foram substituídas por outros modelos de compra.

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7/ A LOJA DA LORENA

Em 1971, Daniel Lopes morreu, aos 82 anos, deixando o conselho de nunca transformar a marca em uma rede. Segundo ele, manter uma única loja era a melhor forma de manter a qualidade. A sugestão foi seguida à risca, mas com o tempo os 187 metros quadrados da rua Augusta ficaram pequenos demais para o movimento crescente da loja. Por isso, em 1979, foram iniciadas as obras de construção da nova sede na alameda Lorena, com 800 metros quadrados de área de venda. A inauguração ocorreu dois anos depois e, nos últimos anos, novas obras de expansão foram realizadas. Atualmente, a loja tem 2.439 metros quadrados, onde podem ser encontradas iguarias do mundo todo. São quase 10 mil itens estrangeiros à venda, sendo 3 mil de importação própria. A delicatéssen importa artigos de 21 países, entre eles pistaches do Irã, cerveja da Jamaica, cordeiro do Uruguai e tâmaras colhidas ainda verdes em Israel para amadurecer nas prateleiras da casa.

8/ HOMENAGEM

O século 21 chegou marcando um novo tempo para a Casa Santa Luzia: o supermercado, que já contava com padaria e adega, lançou uma linha de congelados e produtos de marca própria, entre pães, doces, queijos, pratos prontos e vinhos com o rótulo da casa. Seriam inaugurados, também, o balcão da rotisserie e a cafeteria. E, nesse ritmo, a relação com o novo momento da cidade, de incorporar hábitos gastronômicos à rotina, se consolidava. Como homenagem, a casa encomendou ao artista plástico Gregório Gruber dois imensos vitrais para decorar a loja, instalados em 2003. Observados do mezanino, Fragmentos da metrópole formam uma espécie de caleidoscópio com os produtos coloridos nas prateleiras.

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9/ PRATA DA CASA

“Um dos ensinamentos do senhor Jorge é que a gente tem que tratar bem os clientes, os fornecedores e os funcionários, porque se não tratar bem o fornecedor, não tem mercadoria, e se não tratar bem os funcionários, não tem cliente”, diz o gerente Carlos Morgado. A empresa conta hoje com 480 funcionários, vários deles considerados “pratas da casa”. É o caso de Adérito Nunes (à esq.), prestes a completar 51 anos na empresa. Português da região de Coimbra, chegou ao Brasil aos 17 anos e começou a trabalhar no empório como empacotador. “Já fui balconista, encarregado, comprador e hoje estou na gerência de compras”, orgulha-se. Responsável pelo atendimento ao cliente, José Francisco Mattos (à dir.) é funcionário há 49 anos e começou fazendo serviços de banco. “Na época não havia pagamento online e eu ia de agência em agência”, lembra-se.

Adérito-Nunes-(à-esq.)-e-José-Francisco-Mattos-(à-dir

10/ NEGÓCIO EM FAMÍLIA

Prestes a completar 88 anos, a Casa Santa Luzia recebe uma média de 6 mil clientes por dia. “Chegamos a receber 13 mil pessoas aos sábados, é um estádio de futebol”, conta Álvaro Lopes (à esq.), filho do fundador que, aos 89 anos, ainda acompanha a rotina da empresa da família. Seu primo, Jorge Lopes (à dir.), mais de sete décadas de dedicação à casa, resume em três itens a fórmula do sucesso. “Muito trabalho, uma ótima seleção de produtos e preço honesto.” O pioneirismo também conta pontos no prestígio. Foi lá que a primeira adega climatizada do Brasil foi inaugurada, em 1991, por iniciativa do próprio Jorge Lopes, que idealizou as prateleiras do espaço. Hoje, os vinhos têm uma área exclusiva e cerca de 2.200 rótulos no catálogo. E mais um integrante do clã no comando: Marcelo Lopes, neto do fundador, é o sommelier. Única mulher da família a participar da administração, Ana Maria Lopes (no meio) é vista diariamente pelos corredores da Santa Luzia, em contato próximo com clientes e funcionários. “Esta loja é um patrimônio da cidade e dos nossos clientes e nós apenas temos a honra de administrá-la.”

Álvaro-Lopes-(à-esq.),-Jorge-Lopes-(à-dir

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