Occupy Pinheiros

Occupy Pinheiros

Piqueniques, shows, hortas comunitárias e até karaokes têm ajudado a levar moradores de Pinheiros para as praças da região, seguindo uma tendência mundial de ocupação dos espaços públicos como forma de estreitar os laços com os vizinhos e a cidade.

No dia 23 de fevereiro de 2014, Deco pediu Iaiá em casamento. Em plena praça pública. O pedido, ao microfone, aconteceu no Karaokê na Praça, que acontece uma vez por mês na Praça do Pôr-do-Sol, em Pinheiros. A cena romântica foi embalada por aquela canção do Wando que diz “meu Iaiá, meu ioiô”, ampliada em duas caixas de som. Iaiá respondeu que sim. O casal deu um longo beijo. A praça veio abaixo e cantou junto. “Nos conhecemos numa balada, há apenas três semanas!”, contou depois a noiva, a analista de relações internacionais Iaiá Torre, de 31 anos, ainda surpresa. O advogado Deco Marcondes, de 35, se apressou em dizer que o tempo não importa: “Olhei nos olhos dela e soube que era ela”.
O pedido de casamento foi o ponto alto da segunda edição do evento, inspirado no karaokê do Mauer Park, em Berlim. A ideia vem na esteira de um movimento mundial que defende a ocupação dos espaços públicos como forma de se relacionar melhor com a cidade e os outros. “As pessoas estão com vontade de sair dos shoppings e ir para a rua. A gente propõe isso de maneira divertida e democrática”, diz Mylena Mandolesi, uma das organizadoras. A produção do “palco” é simples e de bom gosto: uma canga estendida na grama e uma tenda enfeitada com fitas e flores ao fundo. “É só escolher a música, colocar o nome na lista e cantar. É de graça!”, anuncia MC Franklin que, ao lado do músico Diego Guimarães, forma uma dupla impagável de animadores, com plaquetas dirigidas ao público onde se lê: “Aplausos!”.
O gramado acomoda casais agarradinhos, crianças soprando bolhas de sabão e grupos de amigos brindando com champanhe. Corajosa, a gerente de marketing Solange Sakugawa, de 35 anos, foi uma das primeiras da lista e mandou logo o clássico I Will Survive, de Gloria Gaynor. “Cantar é só um pretexto para reunir quem mora no mesmo bairro”, diz Solange, que descobriu o karaokê em um grupo do Facebook.

"Ir para rua é uma tendência mundial. A diferença é que no Brasil não temos as praças tão bem cuidadas. Essas iniciativas geram uma demanda que acaba acordando a prefeitura e os moradores."

pinheiros

Na cidade inteira tem espaço

Em outros bairros da cidade há diversas iniciativas de ocupação dos espaços públicos pipocando, como a reivindicação pela criação do Parque Augusta, na Bela Vista, e também a Horta das Corujas, na Vila Madalena, um espaço abandonado que os moradores transformaram em horta comunitária. O movimento Bancos com Encosto para Sampa, idealizado pelo jornalista Ricardo Porto de Almeida, já entregou 14 unidades com encostos confortáveis para a cidade. No Parque Burle Marx, o projeto Pavilhão da Meditação, criado pelo arquiteto Marko Brajovic, em parceria com a revista Bamboo, é uma das novidades mais belas. O projeto prevê 40 mudas de bambu-mossô plantadas em uma área de bosque aberta e de livre acesso ao público, ainda sem previsão de inauguração. Ao longo de três meses, essas mudas em crescimento serão manipuladas por meio de uma técnica tradicional japonesa, criando assim um pavilhão vivo para os frequentadores do parque.

Cinema a céu aberto

O design da Praça do Pôr-do-Sol, em degraus, também foi perfeito para a primeira sessão do Slow Movie, um cinema a céu aberto que está comemorando três anos de sucesso. A produtora de eventos Tatiana Weberman importou a ideia de Barcelona, onde passou um verão animado por eventos culturais pipocando nas ruas todos os dias. “Ir para a rua é uma tendência mundial. A diferença é que no Brasil não temos as praças tão bem cuidadas. Essas iniciativas geram uma demanda de estrutura e manutenção que acaba acordando a prefeitura e os moradores”, diz ela.

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Inspirado no movimento slow (devagar), a proposta é estimular o contato com a natureza, consigo mesmo, com a família ou os amigos. “Às vezes tem uma praça na esquina e a pessoa nunca foi. Em vez de ler o livro no sofá, por que não se senta embaixo de uma árvore?”, sugere Tatiana. Desde a primeira sessão, o cinema itinerante já rodou por outros bairros, reuniu mais de 5 mil pessoas e recebe apoio de amigos e empresas para se manter gratuito. “Tentamos conscientizar as empresas de que não é necessário superexposição de logos etc. O apoio é sutil, mas a percepção do público é grande”, diz Tatiana.

A mesma praça, só que não

A Praça Vitor Civita é um bom exemplo de como é possível revitalizar uma área degradada de maneira participativa. Criada em 2008, no local que abrigava o antigo incinerador Pinheiros, é administrada pela Associação Amigos da Praça Victor Civita e tem como modelo de gestão o envolvimento de empresas, instituições públicas, ONGs e da comunidade, para a realização de atividades culturais, socioambientais e de lazer –todas gratuitas. O programa “Mexa-se na praça” oferece aulas de ioga e de pilates diariamente. O projeto arquitetônico tem no centro um palco que, em shows como o do rapper Criolo, em 2011, atraiu 2 mil pessoas. “Foi um de nossos momentos memoráveis”, diz Marcelo Bressanin, superintendente da Vitor Civita. Entre as novidades para 2014, há uma iluminada sala para workshops, com mesas amarelas e alaranjadas, e a volta do Cine na Praça, com direito a pipoca e almofadas na arquibancada. O movimento de ocupação das praças, para Bressanin, é uma resposta dos paulistanos à escassez de opções de lazer na cidade.

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“Estamos atrasados”, emenda a empresária Cecília Lotufo, idealizadora do Movimento Boa Praça, que atua na conservação dos espaços públicos e promove piqueniques na zona Oeste, no último domingo de cada mês. Sua ideia surgiu em 2008, espontaneamente, quando sua filha Alice quis comemorar o aniversário na Praça François Belanger, no Alto de Pinheiros, na época, em sofrível estado de conservação. Cecília sugeriu que os convidados levassem presentes para a praça, que ganhou lixeiras, mudas de plantas, e até um playground da prefeitura. Depois daquele dia, o Movimento Boa Praça já organizou mais de 50 piqueniques comunitários na região. Alguns envolvem cultivo de horta e plantio de árvores. Para participar, basta levar um quitute e uma bebida.
Somente no bairro de Pinheiros, que compreende Alto de Pinheiros, existem 242 áreas verdes (incluindo parques), sendo 129 praças, segundo a subprefeitura. Uma das mais bonitas é a pequena Praça José Maria Arbex, escondida numa rua que dá acesso a um condomínio de luxo, ao lado do Parque Villa Lobos. Qualquer um pode esticar sua toalha xadrez e desfrutar da sombra das árvores. Piqueniques têm se tornado comuns por lá, já que é equipada com bebedouros, brinquedos, torneira e lixeiras. O Largo da Batata também não é mais o mesmo: redesenhado e em processo de revitalização, tem se transformado, a exemplo do Minhocão, em área de lazer, com happy hour às sextas. Essas iniciativas colocam São Paulo em sintonia com as principais cidades do mundo. Chegou a hora de pegar as cestas de piqueniques e aproveitar os espaços públicos.

PARTICIPE

Karaokê na Praça
http://karaokenapraca.com.br/

Movimento Boa Praça
http://boapraca.ning.com/

Slow Movie
http://respirecultura.com.br/

Largo da Batata
Happy Hour às sextas.
Basta Chegar.

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