CASAS PARA SEMPRE

CASAS PARA SEMPRE

As casas em si já valeriam uma visita, pela beleza de sua arquitetura. Mas elas ainda abrigam valiosas coleções de arte, exposições, palestras, cursos e recitais de música. Conheça algumas residências de famílias em São Paulo e no Rio que se transformaram em respeitadas instituições culturais.

CASA WALTHER MOREIRA SALLES

Gávea, Rio de Janeiro

Desde 1999, o palacete em que o embaixador e banqueiro Walther Moreira Salles (1912-2001) viveu com sua família entre 1951 e 1980 é a sede carioca do Instituto Moreira Salles. Situada num terreno de 10.500 metros quadrados na Gávea, com jardins assistidos por uma montanha rochosa, em meio à exuberância da mata atlântica, a casa foi projetada no final dos anos 1940 pelo arquiteto Olavo Redig de Campos. Moderna e elegante, foi marcada sobretudo por recepções a convidados ilustres – um registro desse período aparece no documentário Santiago (2007), dirigido por um dos filhos de Walther, João Moreira Salles.

1. O jardim projetado por Burle Marx mescla plantas nativas e provenientes de Ásia, Polinésia, Madagáscar e México; 2. Da lavra do paisagista, o painel de azulejos retrata um grupo de lavadeiras.

Seus frequentadores visitam a casa para ver exposições, palestras, shows, ciclos de cinema e também para conhecer, com agendamento prévio, o acervo que engloba várias artes: fotografia, literatura, artes plásticas e música brasileira. Entre as coleções, destacam-se fotos históricas de Marc Ferrez, Marcel Gautherot e José Medeiros, as discotecas dos pesquisadores José Ramos Tinhorão e Humberto Franceschi, o acervo do compositor Pixinguinha e bibliotecas de escritores como Carlos Drummond de Andrade, Rachel de Queiroz, Otto Lara Resende e Decio de Almeida Prado.
Quem desfruta das atividades culturais no IMS ainda tem o privilégio de passear pelo jardim projetado por Burle Marx, com seu sinuoso painel de azulejos representando lavadeiras, que dialoga com o piso do pátio em mosaico de pedra portuguesa. Como pano de fundo, ilhas de vegetação rasteira criadas pelo paisagista mesclam plantas nativas e provenientes de Ásia, Polinésia, Madagáscar e México. Uma das habituées do lugar é a atriz Débora Bloch, que adora passear pelo jardim e tomar um café à beira da piscina. “Tudo na casa é lindo, cada detalhe é especial, como as maçanetas feitas com o encaixe para a mão, que mais parecem esculturas”, diz. “É um espaço muito bonito, generoso e agradável. Para completar, a programação cultural é das melhores do Rio, com exposições sempre incríveis e uma seleção de filmes de primeira.”

CASA WALTHER MOREIRA SALLES
R. Marquês de São Vicente, 476, Gávea, Rio de Janeiro, RJ,
tel. (21) 3284-7400, www.ims.com.br

FUNDAÇÃO EVA KLABIN E FUNDAÇÃO CULTURAL EMA GORDON KLABIN

Lagoa, Rio de Janeiro e Jardim Europa, São Paulo.

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Fachada da Fundação Cultural Ema Gordon Klabin no Jardim Europa, São Paulo.

Duas irmãs, duas colecionadoras, duas fundações. Filhas de imigrantes lituanos, Eva (1903-1991) e Ema (1907-1994) Klabin herdaram do pai o hábito de colecionar. Enquanto o forte de Eva eram peças do Renascimento, Ema se dedicava à arte moderna brasileira. Juntas, as duas reuniram um eclético acervo que pode ser visto em duas fundações, uma no Rio de Janeiro e outra em São Paulo.
Aberta ao público desde 1995, a Fundação Eva Klabin, no Rio, está instalada na casa em que a colecionadora viveu por mais de 30 anos, próxima à lagoa Rodrigo de Freitas. Construída em estilo normando e famosa por abrigar jantares e festas nos quais trafegavam personalidades como Juscelino Kubitschek, David Rockfeller e Henry Kissinger, a casa-museu guarda hoje mais de 2 mil peças, entre pinturas, esculturas, móveis e objetos de arte decorativa, que perpassam quase 50 séculos de história, do Egito antigo ao Impressionismo.
Além do precioso acervo, a fundação oferece ainda uma programação cultural que inclui exposições, concertos, filmes, cursos e conferências. Um evento mensal já tradicional na vida cultural carioca é a série Quintas com Música, que desde 1998 promove apresentações que vão da música clássica ao chorinho – tudo, claro, seguido de um frugal coquetel nos jardins da casa.

1. Sala de jantar da casa onde hoje funciona a Fundação Eva Klabin, no Rio, por onde circularam no passado personalidades como Henry Kissinger; 2. As irmãs Ema (à esquerda) e Eva Klabin nos anos 1950.

Em São Paulo, a Fundação Cultural Ema Gordon Klabin, aberta em 1978, fica num terreno de 4 mil metros quadrados do Jardim Europa. A casa tem um único pavimento projetado especialmente para acolher o acervo com mais de 1.500 obras de diversos períodos: tapeçarias persas, jades chinesas, cerâmicas gregas, objetos de arte africana, arte pré-colombiana, europeia e moderna brasileira, mobiliários, prataria, além de uma biblioteca com mais de 3 mil volumes, muitos deles raros. Entre os destaques, telas de Di Cavalcanti, Portinari, Tarsila do Amaral, Lasar Segall, Marc Chagall, Renoir, Frans Post e Jan Bruegel.
Apreciadora de música e arte, Ema teve uma significativa atuação na vida cultural paulistana, participando de conselhos de instituições culturais, apoiando entidades beneficentes, promovendo artistas e realizando concertos com músicos de renome. José Gregori, ex-ministro da Justiça e atual secretário especial de Direitos Humanos da prefeitura de São Paulo, teve o privilégio de frequentar alguns dos recitais que ela promovia em sua casa. “Ema era uma mulher finíssima, culta, discreta e com uma inserção especial no meio cultural”, diz. Após a morte da colecionadora, ele ainda visita, sempre que possível, a fundação. “Tem peças muito importantes lá”, pontua.

FUNDAÇÃO EVA KLABIN
Av. Epitácio Pessoa, 2.480, Lagoa, Rio de Janeiro, RJ,
tel. (21) 3202-8550, www.evaklabin.org.br

FUNDAÇÃO CULTURAL EMA GORDON KLABIN
R. Portugal, 43, Jardim Europa, São Paulo, SP,
tel. (11) 3897-3232, www.emaklabin.org.br

FUNDAÇÃO MARIA LUISA E OSCAR AMERICANO

Morumbi, São Paulo.

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Em 1974, dois anos após a morte de sua mulher, Maria Luisa, o engenheiro e empresário Oscar Americano (1908-1974) doou à cidade de São Paulo não apenas a residência em que viveram durante 20 anos, no bairro do Morumbi, como também uma expressiva coleção de arte. Construída em 1950 e com 1.500 metros quadrados de área, a casa projetada por Oswaldo Arthur Bratke é moderna, mas de linhas clássicas, em perfeita integração com o parque que a rodeia, uma importante reserva ecológica da cidade.
Implantado num local onde só existiam eucaliptos e pinheiros, o parque-jardim da fundação é obra do paisagista Otávio Augusto Teixeira Mendes, cujo contrato estabelecia que seus serviços seriam pagos “por árvore de qualidade, plantada e vingada”. Hoje a área de 75 mil metros quadrados possui cerca de 25 mil exemplares da flora brasileira, entre jacarandás, sibipirunas, angicos, paus-ferro e paus-brasil. O espaço também serve de lar para 50 espécies de aves, que podem ser observadas em visitas monitoradas.
Verdadeira viagem pela história do Brasil, o acervo da fundação está dividido em três núcleos. O primeiro, dedicado ao Brasil colônia, é formado por pinturas do século 17, entre elas oito óleos do holandês Frans Post, além de objetos de arte sacra e imagens do século 18. O segundo núcleo reúne pinturas e objetos da época imperial brasileira, enquanto o terceiro mostra obras de artistas brasileiros do século 20, entre eles, três pinturas de Portinari, uma de Segall e outra de Di Cavalcanti (Cais, que o artista pintou na própria casa). Móveis, pratarias inglesa, portuguesa e brasileira e porcelanas inglesa, francesa e da Companhia das Índias completam a coleção.

1. Oscar Americano e sua mulher, Maria Luisa; 2. Sala de visitas que reúne pinturas e objetos da época do Brasil Império.

Mas a fundação oferece mais. Aos domingos, o auditório de 107 lugares é palco de concertos de música clássica.. Além dos recitais, cursos de arte, cinema, literatura, história e paisagismo acontecem nas tardes de segunda a sexta. E o passeio sempre pode terminar com uma parada no salão de chá, servido de terça a domingo em louças brancas e bules de prata, seguindo a tradição inglesa.
A jornalista Sandra Annenberg, costuma frequentar o lugar em diferentes ocasiões: para conversar tranquilamente com as amigas, fazer um passeio romântico com o marido, levar a filha para brincar no parque, assistir a concertos em família ou visitar o museu e a casa. “São muitas opções em um só lugar”, resume.

FUNDAÇÃO MARIA LUISA E OSCAR AMERICANO
Av. Morumbi, 4.077, Morumbi, São Paulo, SP,
tel. (11) 3742-0077, www.fundacaooscaramericano.org.br

MUSEU da CHÁCARA DO CÉU e MUSEU DO AÇUDE

Santa Teresa e Alto da Boa Vista, Rio de Janeiro.

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Além de se dedicar ao comércio de tecidos e à produção de óleo de linhaça, o empresário franco-brasileiro Raymundo Ottoni de Castro Maya (1894-1968) era um defensor do patrimônio histórico e artístico nacional. Além de ter participado da criação do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro em 1948, do qual foi o primeiro presidente, Castro Maya acumulou ao longo de quase meio século uma coleção de arte com mais de 22 mil itens. Esse acervo hoje pode ser visto em dois endereços no Rio: o Museu da Chácara do Céu e o Museu do Açude.
O primeiro está instalado num endereço no bairro de Santa Teresa conhecido desde 1876 como Chácara do Céu. Castro Maya viveu lá até os 23 anos de idade e herdou o lugar aos 45. Em 1954, o centenário palacete neoclássico foi demolido, dando lugar à construção atual. Projetada pelo arquiteto Wladimir Alves de Souza e integrada aos jardins concebidos por Burle Marx, a construção se destaca por suas linhas modernistas e pelo terreno privilegiado, com uma espetacular vista de 360 graus do centro da cidade e da baía de Guanabara.

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O lugar guarda uma rica coleção de arte europeia com pinturas, desenhos e gravuras de várias escolas artísticas, do Impressionismo à abstração. Obras de mestres
como Monet, Matisse, Modigliani, Degas, Seurat e Miró dividem espaço com trabalhos de brasileiros como Guignard, Di Cavalcanti, Iberê Camargo, Antonio Bandeira e Portinari (este último tem ali o maior acervo privado de suas obras).
A Chácara do Céu conserva ainda uma expressiva coleção brasiliana com mapas antigos, óleos, aquarelas, guaches, desenhos e gravuras, com destaque para os cerca de 500 originais dos cadernos de viagem de Jean-Baptiste Debret. Arte oriental, mobiliário, tapetes e prataria também integram o acervo, que abriga ainda 8 mil títulos da biblioteca Castro Maya – livros de arte, literatura brasileira, europeia e algumas das mais importantes publicações dos primeiros viajantes do século 19.

O segundo “presente” de Castro Maya ao Rio, o Museu do Açude, fica na antiga residência de verão do empresário colecionador, no Alto da Boa Vista. Reformada na década de 1920, a sede ganhou uma importante coleção de azulejos de Portugal, França, Alemanha e Espanha, além de móveis coloniais brasileiros e peças de arte oriental. Fica em plena floresta da Tijuca, numa área de 150 mil metros quadrados de mata atlântica, toda ela cortada por trilhas sinalizadas e belos jardins ornamentados com instalações permanentes de artistas brasileiros contemporâneos como Iole de Freitas, Anna Maria Maiolino, Hélio Oiticica, Nuno Ramos, Lygia Pape e José Resende.

MUSEU DA CHÁCARA DO CÉU
R. Murtinho Nobre, 93, Santa Teresa, Rio de Janeiro, RJ,
tel. (21) 3970-1126, www.museuscastromaya.com.br

MUSEU DO AÇUDE
Estrada do Açude, 764, Alto da Boa Vista, Rio de Janeiro, RJ,
tel. (21) 3433-4990, www.museuscastromaya.com.br

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