BOULEVARD GABRIEL

BOULEVARD GABRIEL

Hoje, a rua que liga a Marginal Pinheiros aos Jardins, tem 140 lojas, cerca de 90% delas especializadas em decoração.

O endereço das melhores marcas de decoração no Brasil todo mundo já sabe: é a Alameda Gabriel Monteiro da Silva, em São Paulo. Agora uma turma de empreendedores quer transformar a rua em um boulevard, com trechos sem carros: Um shopping aberto, com árvores, cafés e charmosos lugares para sentar.

Gabriel Monteiro da Silva foi um advogado com grande influência na capital paulista. Chegou a ser cogitado para suceder Gaspar Dutra na presidência da República. Um acidente de carro na estrada Rio-Petrópolis, em dezembro de 1946, abreviou suas ambições políticas. Mas ele era tão importante que a rua onde morava em São Paulo – chamada até então de Dona Hipólita – foi rebatizada com seu nome. O que certamente o doutor Monteiro da Silva nunca imaginou é que, meio século depois, sua alameda Gabriel viraria sinônimo de sofisticação e bom gosto.
A alameda liga a Marginal Pinheiros aos Jardins, cortando a avenida Brasil em uma das regiões com o metro quadrado mais valorizado da cidade. Hoje, a rua tem 140 lojas, cerca de 90% delas especializadas em decoração. As exceções são três clínicas médicas, as lojas de moda feminina da Patrícia Jereissati e a By Cy, o restaurante Casa Europa, a pizzaria Primo Basílico, a lanchonete Kindins, o colégio católico Madre Alix, um supermercado, as galerias André e Bia Doria e menos de uma dúzia de lojas menores. A maioria dos casarões onde morava boa parte da alta sociedade paulistana foi, do final da década de 80 em diante, transformada em showrooms de marcas ícones do design brasileiro e internacional, como as italianas Armani Casa e Missoni Home. O que fez a alameda Gabriel virar a maior referência do
Brasil na área de decoração, ponto de encontro de arquitetos, decoradores e clientes exigentes, que valorizam mobiliário e objetos assinados.
A concentração de lojas de um mesmo nicho de mercado, que juntas rendem cerca de R$ 2 bilhões de faturamento anual, aconteceu espontaneamente. O empresário José Armando, dono da marca de móveis de fibras naturais Armando Cerello, foi o primeiro a inaugurar um showroom na rua, que até então era dominada por residências. O economista, que trabalhava com o pai desde os 12 anos na fábrica criada em 1902 por seu avô, ficou sem chão quando, em 1986, foi informado que o imóvel que alugava havia cerca de 30 anos na rua Augusta seria demolido para a construção de um prédio. “Até que visitei um cliente, o arquiteto Sig Bergamin, aqui na Gabriel. O escritório dele ficava nesta casa, de 1.200 metros quadrados, o espaço que eu precisava para montar a minha loja”, lembra José Armando. Por sorte, Bergamin estava de mudança para um novo escritório ali perto. “Sig me apresentou ao dono do imóvel e, em pouco mais de seis meses, inaugurei o primeiro showroom de móveis da rua”, conta. Depois da Armando Cerello, que está até hoje no mesmo endereço, começaram a pipocar lojas de artigos para decoração – de tapetes, tecidos para cortinas e iluminação –, além de marcas de móveis brasileiras como a Madeira Bonita. “O principal atrativo da rua era o tamanho das casas, que comportavam lojas grandes para expor móveis e receber os clientes com conforto, e recuo na frente para estacionar os carros. E isso em uma região de alto poder aquisitivo”, destaca José Amando.

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A MARCA BRASILEIRA

Foi justamente o porte dos imóveis da alameda Gabriel que atraiu, mais de dez anos depois, em 1998, um nome forte do design brasileiro. Etel Carmona também precisou sair do espaço que ocupava na Vila Madalena e procurava um imóvel que transmitisse o mesmo refinamento estético com que desenha suas peças. “Quando entrei neste casarão, com arquitetura do Oswaldo Bratke e árvores centenárias, eu me apaixonei”, conta. Dali em diante, a alameda Gabriel virou o palco principal para o que a filha de Etel – Lissa Carmona, que administra o negócio da mãe – chama de “retomada do design brasileiro”.
Junto com a Etel Interiores, a House Garden – que comercializava nos anos 90 artigos variados projetados por designers de peso no exterior, onde hoje é o showroom da By Kamy Tapetes – atraiu para a alameda Gabriel um público mais especializado. E os lojistas tiveram que passar a se preocupar não só com o que vendiam, como também com a ambientação do próprio espaço. Ao passear pela rua, percebe-se uma certa competição pelo showroom mais surpreendente. Chamam a atenção os contêineres que dão um toque industrial à loja da Decameron, e é um programa inspirador dar uma olhada na curadoria de mobiliário visitando espaços como os da A Lot Of, Carbono e Dpot.
As opções são tantas que um dia só não é sufi ciente para conhecer tudo que as maisons da alameda Gabriel oferecem. Das peças selecionadas no antiquário da criteriosa Ana Wawelberg às opções de tecnologia para cozinha da Viking e da Kitchens, na Gabriel se encontra de tudo para a execução de projetos de arquitetos e consumidores com o olhar refinado como o de Dado Castello, um dos profissionais mais ativos da rua.

Nº 1.487 – Fachada Viva

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A Firma Casa, de Sonia Diniz Bernardini, investiu em 2010 em uma mega reforma e reinaugurou seu showroom no ano seguinte com uma fachada idealizada pelos Irmãos Campana e desenvolvida pelo escritório de arquitetura SuperLimão. “Estávamos na Gabriel desde 1994 e fomos pioneiros na importação de mobiliário de designers internacionais no Brasil. Como na época a legislação só permitia na Gabriel escritórios e showrooms, mantivemos a arquitetura da casa, da década de 40. Depois de 2004, quando a lei mudou, apareceram lojas com projetos de arquitetura diferenciados e percebi que estávamos ficando para trás. Então convidei os Campana para pensar em algo diferente. Eles vieram com a ideia de uma fachada de plantas vivas e indicaram a SuperLimão para executar. Ficamos um ano e meio fechados e reabrimos com essa fachada de espadas de São Jorge, diferente de tudo na rua”, conta Sonia. Ela conseguiu atrair para a alameda Gabriel, na década de 90, um turismo diferente, de estudantes de arquitetura e design de produto. “Aos sábados, eu recebia professores e suas turmas. A loja funcionava como um mini museu, eles adoravam levar as fichas com o histórico de cada peça”, conta Sonia, que este ano vai transformar sua segunda marca, a Conceito, em loja virtual para atender todo o Brasil.

+ firmacasa.com.br
+ conceitofirmacasa.com.br

Nº 820 – O MAIOR SHOWROOM

Com fábrica própria, a família Rivkind já tinha lojas rentáveis da Breton Actual nos shoppings Lar Center e D&D, um outlet na rua Joaquim Antunes, em São Paulo, e uma filial no Casa Shopping, no Rio de Janeiro. Mas quando entrou na alameda Gabriel, em 2001, a marca, fundada pelo pai de Marcel Rivkind em 1967, ganhou prestígio. “Hoje temos uma cartela com mais de 5 mil arquitetos que recomendam a Breton no Brasil todo”, conta. Há três anos, o empresário investiu em uma reforma ousada ao adquirir o imóvel vizinho e hoje ostenta com orgulho o título de flagship store de maior metragem da Gabriel, com pouco mais de 1.400 metros quadrados, elevador e todos os quesitos que uma loja na rua precisa ter. “Aqui não temos vendedores, temos consultores com formação em arquitetura. Temos de ter também serviço de café, manobrista e segurança. Não é um negócio para aventureiro, que acha chique ter uma loja na Gabriel. Manter um espaço aqui tem um custo alto. Os aluguéis dos imóveis variam entre R$ 25 mil e R$ 50 mil por mês”, avalia o empresário, que conta com a força de trabalho da mulher e dos três filhos. “Somos uma empresa familiar”, ressalta. Tanto que seu irmão, Breno Rivkind, tem duas lojas na Gabriel, a Brentwood, uma dissidência da Breton.

+ breton.com.br

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Nº 795 – Mais Democrática

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A Doural inaugurou uma nova tendência na alameda Gabriel. Líder do varejo que comercializa mais de 60 mil itens em sua megaloja na rua 25 de Março desde 1905, a família Abdalla resolveu há três anos investir em um novo endereço para atender clientes de alto poder aquisitivo que não gostavam de se deslocar para o centro da cidade. Os Abdalla inauguraram na alameda Gabriel um espaço mais refinado, com menos variedade de produtos e artigos mais caros, com destaque para marcas como Le Creuset e Riva. Camila Abdalla, que é casada com um dos herdeiros da Doural e administra a loja da Gabriel, conta que, com o tempo, percebeu que, mesmo nesse nobre endereço, deveria seguir a filosofia da empresa da família: ter uma grande oferta de produtos de preços variados. “A Gabriel está ficando mais democrática, porque mesmo quem tem alto padrão está mais consciente no consumo e não quer rasgar dinheiro”. Entretanto, a Doural da alameda Gabriel permanece com um perfil diferente da loja da 25 de Março. Oferece também cursos de culinária e, diariamente, tem um bolinho com café. “Tem cliente que passa aqui só para comer nosso bolo e acaba olhando tudo que temos.”

+ doural.com.br

Nº 1.555 – Clima do Interior

Além de atrair turistas do Brasil todo e servir de passeio para moradores nos fins de semana, há na rua um fluxo de pessoas que usam a Gabriel como fonte de inspiração e educação. É o caso dos alunos do colégio Madre Alix. “É comum os professores levarem os alunos para visitar as galerias de arte que temos na Gabriel ou ir andando até os museus que ficam perto daqui, como o MIS (Museu da Imagem e do Som) e o MuBE (Museu Brasileiro da Escultura)”, conta Ana Silvia Klain, coordenadora do ensino médio que trabalha no colégio há 17 anos e também teve um filho que estudou na escola. Quem costuma, aliás, passar pela alameda Gabriel e nunca entrou no colégio Madre Alix não imagina que por trás do extenso muro coberto de heras existe um oásis, cercado de árvores, com horta orgânica, muito espaço sem barulho de trânsito e crianças brincando como se estivessem em uma cidade do interior. “As pessoas se surpreendem quando visitam o colégio e sentem esse clima em plena Gabriel”, conta Ana Silvia. O que confirma uma vocação natural da alameda. “Além de vender móveis, a Gabriel é um polo de cultura”, arremata Marcel Rivkind, na liderança do movimento para transformar a Gabriel em um boulevard.

+ madrealix.g12.br

ana-silvia

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