No mesmo tom

No mesmo tom

Praticidade, conforto e funcionalidade pautam o apartamento de Flávia e Binho Feffer, um espaço pensado para receber os amigos e deixar as crianças à vontade.

Qual é mesmo a marca?”, indaga o músico Ruben Feffer para a mulher, a produtora executiva Flávia Prats Feffer. O mote da dúvida em questão é o nome do fabricante das duas luminárias de vidro que pairam sobre a mesa de jantar no apartamento do casal, uma das poucas extravagâncias do lugar pautado pela praticidade. “Não me lembro, só sei que vieram da Itália”, devolve Flávia. O jeito desencanado da dupla em relação a grifes revela muito sobre o conceito que permeia o espaço de 500 metros quadrados localizado na zona oeste de São Paulo. “Somos péssimos para nomes”, explica Binho, como Ruben é conhecido desde criança. “O importante para a gente é o conforto, a qualidade, a funcionalidade, o nosso gosto pessoal.”

Prova disso é que ao se mudar para o apartamento, há cerca de três anos, o casal teve ajuda de um profissional na decoração dos ambientes. “Ficou lindo, mas não tinha a nossa cara, não se encaixava em nosso estilo de vida”, recorda Flávia. Não demorou para os moradores deixarem a sala de estar mais livre para abrigar as obras de arte, uma paixão compartilhada pelos dois, e também para funcionar como cenário dos frequentes encontros com os amigos. “A gente adora receber, nossa casa sempre foi o QG oficial da turma”, continua Flávia, que neste ano reuniu cerca de 90 convidados para celebrar seu aniversário de 40 anos. “Foi só arredar os móveis para transformar a sala em uma balada com direito a DJ e banda ao vivo.”

Desde agosto, contudo, a casa está mais silenciosa por conta do nascimento de Rodrigo, primeiro filho do casal. “Agora, nosso foco está no bebê”, constata o músico, sentado ao piano eletroacústico que pertenceu ao pai, Max (1926-2001). Binho tem uma relação longeva com o objeto. Foi no aniversário de 13 anos, na década de 1980, que ele deu uma canja no piano da banda que tocava na festa de seu bar mitzvah. Mais tarde, quando soube que o instrumento estava à venda, resolveu comprá-lo em parceria com os irmãos para presentear o pai. “Quando meu pai morreu, o piano ficou comigo”, conta. Além da memória afetiva, o piano hoje acomodado em uma esquina do home theater ajuda a contar a intensa relação da família Feffer com a música. A história começa na década de 1920, quando o avô de Binho, Leon Feffer (1902-1999), trocou a Ucrânia pelo Brasil. Na bagagem, o imigrante trouxe o violino, instrumento que não abandonou ao enveredar pelo mundo dos negócios e criar, em 1939, a fábrica que daria origem à companhia Suzano de Papel e Celulose, hoje a segunda maior produtora de celulose de eucalipto do mundo e a líder no mercado de papel da América Latina.

O amor do patriarca pela música foi transmitido ao filho Max, que primeiro aprendeu violino, mas adotou o trompete como instrumento de predileção por se identificar mais com o universo do jazz. Max sucedeu Leon no comando da empresa da família, mas, a exemplo do pai, nunca deixou os instrumentos de lado. Junto da mulher, Betty, com quem teve os filhos David, Daniel, Jorge e Ruben, mantinha um lar essencialmente musical. “Sempre ouvimos muito rádio e vitrola, sem contar que nossa casa vivia cheia de músicos, como o pessoal do Zimbo Trio e Astor Piazzolla”, recorda Binho. “Meu pai tocava vários instrumentos e foi uma grande influência não só para mim, como para meus irmãos. Todos gostamos muito de música, sem contar que eu e Jorge tocamos piano e Daniel, bateria.”

Não por acaso, Max apoiou a decisão do caçula quando em 1998, aos 28 anos, Binho resolveu trocar o trabalho na área de tecnologia da Suzano pela vida de músico. “Queria fazer música, mas sem abdicar da relação com o mundo empresarial, e acho que consegui encontrar um caminho do meio”, diz. Em 2001 ele criou a Ultrassom – Music Ideas, produtora que hoje comanda com Flávia, e desde então vem compondo trilhas sonoras para cinema, teatro, TV e publicidade. É o caso do espetáculo Pequeno sonho em vermelho, da Companhia Linhas Aéreas, cujo trabalho em parceria com Gustavo Kurlat lhe rendeu o Prêmio Shell de Teatro em 2003. Ou então de Quebrando o tabu (2011), de Fernando Andrade, documentário em que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso conduz uma discussão sobre a descriminalização de drogas leves. Um dos trabalhos mais recentes da Ultrassom, a animação O Menino e o mundo, de Alê Abreu, ganhou como Melhor Longa e o Prêmio de Público no Festval de Annecy, um dos mais importantes do gênero. O filme é considerado um dos fortes candidatos a uma vaga para o Oscar do ano que vem. A trilha assinada por Binho e Gustavo, que tem papel importante na história, também foi premiada no Festival Cine Música, do Rio de Janeiro, e na Monstra – Festival de Cinema de Animação de Lisboa.

HERANÇA MUSICAL

E, pelo visto, a ligação dos Feffer com a música promete ter vida longa. Parte dos instrumentos que estão no apartamento pertence a Nathan, 14 anos, e Max, 11, filhos do primeiro casamento do músico. “Nunca forcei a barra, eles gostam de música naturalmente”, afirma Binho. “Agora, inspirado pelos dois, estou aprendendo a tocar violão e guitarra”, continua o pianista. O canto onde pai e filhos se encontram para jams é também decorado por peças que remetem ao universo musical, como uma guitarra portuguesa e uma luminária cuja base é um saxofone de verdade, todos presentes da tia de Binho, a antiquária Renée Behar. “Já virou tradição: nos meus aniversários ela sempre me dá alguma peça ligada à música.”

Ao lado do home theater, a biblioteca dá mostras da paixão do casal pelas viagens. Em uma das prateleiras repousam álbuns que registram momentos da dupla em lugares como África do Sul, ilhas Seychelles e Japão. Neste último, o casal aproveitou para visitar o templo principal do Nichiren, vertente japonesa do budismo seguida por Flávia desde a temporada que passou em Londres, entre 2003 e 2006. “Tenho uma ligação muito forte com aquela cidade, é a minha referência”, diz Flávia.

Logo abaixo dos álbuns de viagem fica o Butsudan, altar budista na forma de um pequeno armário diante do qual Flávia costuma meditar. Não raro, contam, reúnem alguns amigos na sala de estar para recitar o Daimoku, mantra sagrado do budismo japonês. Tudo no clima “sem frescura” que o casal tanto aprecia. “A gente adora deixar todos bem à vontade. As crianças podem brincar em todos os lugares e subir nos sofás”, conta Flávia, enquanto acaricia a lhasa apso Nikka Costa e repete seu mantra favorito: “É uma casa sempre aberta aos amigos”.

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