Multifacetado

Multifacetado

Em sua casa de inspiração modernista, projetada por ele mesmo entre árvores e silêncio, o arquiteto e designer paulistano Rafic Farah guarda memórias, móveis e objetos pitorescos. a seguir, ele mostra 14 peças cuidadosamente selecionadas para contar sua intensa trajetória.

Designer, fotógrafo, arquiteto, escritor. Rafic Farah, 65 anos, não se cansa de experimentar. Formado em arquitetura pela FAU-USP, o paulistano descendente de sírios retomou o gosto por construções desde que fez sua casa no Sumaré, há cerca de dez anos, após um mergulho de décadas no universo gráfico. “Quando saí da faculdade, fui direto para o design gráfico. Essa casa foi o meu primeiro projeto de arquitetura”, conta ele, que ao longo do primeiro período da carreira criou logotipos para marcas como Zoomp, o restaurante Spot e a revista TRIP, assinou catálogos e campanhas de moda, e teve vários trabalhos incluídos no livro Linha do tempo do design gráfico no Brasil, de Chico Homem de Melo e Elaine Ramos (Cosac Naify). obra referência sobre o tema.

Erguida em duas etapas, a casa começou apenas com quarto, banheiro e cozinha, em uma estrutura de barro, no terreno amplo. A segunda parte, a sala suspensa em concreto e vidro, veio alguns anos depois, sob a influência moderna de Oscar Niemeyer. Hoje, boa parte da produção de seu estúdio, o São Paulo Criação, é de arquitetura e mobiliário. O cinema HSBC Belas Artes, em São Paulo, e a Fazenda Tijuípe, no sul da Bahia, por exemplo, são algumas das criações de Rafic e sua equipe, que hoje conta com dez arquitetos. Em parceria com o também arquiteto Otávio Coelho, Farah está desenvolvendo uma linha de móveis para a loja Dpot, que tem como premissa a paixão da dupla pela construção naval. Em maio de 2015, toda a produção estará reunida também no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo.

Como se não bastasse, o intrépido paulistano da Mooca é um dos fundadores da Escola da Cidade, uma das principais faculdades de arquitetura e urbanismo do Brasil. Ele também dirige o departamento de comunicação da instituição e promove palestras sobre cultura brasileira, seu assunto favorito e tema de estudo permanente. Mas Rafic não para por aí: um livro de contos já está circulando entre mais próximos. “Eu poderia ter mandado para algum crítico literário avaliar, mas preferi a opinião dos leigos mesmo. Escrevo para o público comum, não para iniciados”, diz.

CHAPÉU DE PALHA DO CAPITÃO BANDEIRA

“Em 1983, publiquei um livro com o Paulo Caruso, a história em quadrinhos ‘As aventuras do Capitão Bandeira’. Conta a história de um anti-herói brasileiro e fez o maior sucesso. Em uma semana a edição havia esgotado. Alguns anos mais tarde, a TV Cultura fez uma adaptação do gibi para a TV, e eu interpretei o Capitão Bandeira, usando este chapéu. Agora, quero retomar esse projeto e levar a história para a Globo, daria uma ótima minissérie.”

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TACO DE SINUCA

“Meu pai adorava jogar sinuca. Foi ele que me ensinou a jogar, quando eu era moleque. Este era o taco que ele usava. Eu era fascinado por ele, porque virava uma bengalinha quando guardado.”

MALETA DE COURO

“Nos anos 70, fiz uma viagem para Salvador com a turma da FAU. Fiquei encantado com o mercado modelo e toda aquela variedade de artesanato. Sandálias de couro, chapéus. Comprei um monte de maletas de couro deste tipo e usava direto.”

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PORTA-RETRATO

“Esta foto é um sonho feliz de casamento. Foi tirada em 1949. Meu pai, Jorge Farah, tinha 36 anos, minha mãe, Widad Yazigi Farah, 23. Ele cantava e tocava alaúde. Para pagar as contas, montou a lanchonete Dunga, onde criou o sanduíche Beirute. Algum tempo depois, fundou o restaurante Flamingo, que lançou o Farofino, a sobremesa de sorvete com farofa doce, muito popular em São Paulo. Minha mãe, ótima cozinheira, ajudava no restaurante, e eu vivia lá. Adorava ouvir as histórias do pessoal da cozinha.”

BENGALA

“Esta é a bengala que meu pai usou no fim da vida, quando tinha dificuldade para andar.”

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MESA KAEKO

“Fiz esta mesa para a minha dentista, Kaeko. Ela me pediu um móvel para o consultório e criei essa peça, que depois foi premiada, apareceu em várias revistas internacionais de design. Foi o primeiro móvel que eu criei, em 1990. Agora há uma versão com cedro rosa e fibra de vidro, a mesa K2, resultado de uma parceria com o arquiteto Otávio Coelho. Ela é feita de forma artesanal e está à venda na loja Dpot. Em maio do ano que vem, o Museu da Casa Brasileira fará uma mostra sobre o meu trabalho, com 15 peças de mobiliário, e a Kaeko estará lá.”

BUMBO

“Na faculdade, tínhamos um bloco de Carnaval toda sexta-feira, o Sambafo. Eu tocava bumbo e guardo o instrumento até hoje. Ficávamos nas escadarias, esperando o pessoal sair da aula para se juntar a nós.”

bumbo

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CANOA DE MADEIRA

“Sou louco por barquinhos, aviões, tenho dezenas deles no estúdio. Esta canoa eu comprei em Paraty, é feita de um único pedaço de madeira. Este tipo de desenho, as curvas, tem muito a ver com o design dos móveis que faço com o Otávio Coelho atualmente.”

REMO DE MADEIRA

“Nos anos 70, eu ia muito para Ubatuba. Conhecia um alemão que morava na praia e fazia sucesso com todas as mulheres por ali. Roubou namoradas de vários amigos meus. Entre outras façanhas, ele remava de pé numa canoa. Decidi fazer o mesmo para me exibir para a minha namorada na época e impedir que ela se encantasse pelo alemão. Eu usava este remo de madeira. Mas a tática não deu muito certo. Algum tempo depois ele a levou para a Bahia.”

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AEROMODELO

“Foi com esse brinquedo que aprendi arquitetura, quanto tinha 9, 10 anos. Montar este avião me deu habilidade artesanal, noção de estrutura, ergonomia, aerodinâmica, design, tecnologia e projeto. Eu adorava passar horas juntando cada pecinha. Até hoje tenho vários aviões desse tipo no meu estúdio.”

TRENA

“Acho que já nasci arquiteto, sou obcecado por ferramentas. Adoro lojas de material de construção, compro de tudo. Tenho duas trenas em casa e quatro no estúdio, que são fundamentais para acompanhar as obras.”

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CAMISETA DO BOTAFOGO

“Jogo com esta camisa do Botafogo desde que entrei na FAU, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Meus amigos até hoje estranham ou comentam com humor quando entro em campo com ela. Ela é simplesmente a de número 7, do Garrincha. Para mim, jogador de futebol tinha de driblar, e drible era Garrincha. Numa coincidência que muito me agradou, o professor Chico Homem de Mello, uma das mais expressivas sabedorias do design neste país, escreve, na abertura do meu livro Como vi – O design de Rafic Farah, Cosac Naify, 2000, que, no design, não sou Pelé, sou Garrincha. Fiquei emocionado por ele me associar ao Garrincha. Fora isso, é uma das mais despojadas camisas do futebol: listras e um escudo, absolutamente simples com a famosa estrela solitária.”

FACÃO

“Quando criança, minha família morava na Vila Mariana. O bairro era cheio de terrenos baldios, com poucas construções e muito mato. Para os meninos, era um prato cheio para as brincadeiras. Eu saía pelas ruas com um facão como este pendurado na cintura, para cortar o matagal e brincar de explorador.”

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CASA RUA POMBAL

A casa onde Rafic mora foi seu primeiro projeto arquitetônico. A primeira parte, com a suíte e cozinha, tem estrutura de pau a pique. Anos depois, enquanto planejava a sala, o arquiteto teve um encontro com Oscar Niemeyer, que mudou o curso das ideias. “Depois disso, decidi fazer a segunda parte da casa de concreto e vidro, aproveitando essa vista do terreno cheio de árvores”, conta ele, que cuidou também do paisagismo.

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