Lua e Pedro Nitsche

Lua e Pedro Nitsche

CASA/ ONTEM

Filhos dos artistas Marcello Nitsche e Carmela Gross, os irmãos cresceram numa casa assinada por Paulo Mendes da Rocha, no Butantã. Foi ali que eles buscaram inspiração para montar os apartamentos onde vivem hoje.

O arquiteto Pedro Nitsche não era arquiteto. Era menino. Tinha 10 anos. Sua irmã mais velha, Lua, 13 anos, não estava lá. Mas João, o mais novo, 6 anos, estava. Pedro e João viviam com Lua e os pais, os artistas plásticos Marcello Nitsche e Carmela Gross, numa casa arquitetada por Paulo Mendes da Rocha.

Naquele dia, os dois irmãos escorreram para dentro do ateliê da mãe. Vestiam uma luva especial que criaram. “A gente inventou por causa daquele filme do Freddy Krueger”, conta Pedro. Na ponta de cada dedo, à guisa de unha, colaram prego, estilete, canivete. “Eu ficava um tempão rasgando a grama, o chão, arranhando árvore, o jardim. Mas aí teve esse dia...”

Nesse dia, os irmãos ouviram a mãe soltar um muxoxo diante de uma tela em que trabalhava. “Ela falou qualquer coisa, tipo ‘tá uma droga esse quadro’, e saiu”, diz Lua. Mais tarde, Carmela descobriu a arte. “Ela ficava berrando: ‘Vocês rasgaram tudo!”, ri Pedro. “E o João só falava: ‘Mas, mãe, você disse que tinha detestado o quadro!’.“

Térrea, três quartos, 120 metros quadrados em 600 metros quadrados de terreno. Uma edícula e um jardim, lá atrás, que corre pela lateral. No jardim, piscininha pintada de azul-marinho, tanque de areia e árvores. Havia um cajá-manga encostado na parede. Para os meninos, servia de escada clandestina para um detalhe escondido e fantástico no projeto de Paulo Mendes da Rocha: um espelho d’água na laje. “Tinha uns 30 centímetros de profundidade, um monte de peixinhos”, diz Lua.

A história desse projeto nasceu de uma amizade. Paulo, Marcello e Carmela trabalhavam juntos. Foram os Nitsche que fizeram as maquetes do Pavilhão do Brasil em Osaka (Japão), construído em 1970 por Rocha. Marcello e Paulo se tornaram bons companheiros. Quando Lua nasceu, em 1972, Paulo pensou numa casa para a família, que ocuparia um terreno baldio no bairro do Butantã. Rabiscou um desenho bastante simples. São quatro finas colunas de concreto. Sobre elas, a laje com o espelho d’água. Sob a laje, garagem, área de serviço, uma cozinha que se liga à sala, banheiro e os dormitórios.

Algumas das paredes são, na verdade, janelões retráteis, de modo que Lua se recorda de “atravessar a casa toda de patins pegando um impulso só”. Bastava desviar das prateleiras e de uma mesona de cimento que servia de transição entre os ambientes social e de serviço. As paredes, o casal cobriu com artes próprias e de amigos, como o argentino León Ferrari (1920-2013) e o paulistano Nelson Leirner. E, entre uma e outra, os desenhos das crianças.

“Eu acho que essa casa foi mesmo o ponto de partida para o jeito de a gente pensar os espaços”, diz Pedro. “Isso está no nosso estilo, na nossa arquitetura. E, se pensar bem, até onde moramos atualmente. A gente herdou muita coisa desse lugar e dos nossos pais. Era uma casa... livre.”

CASA/ HOJE

A fama da arquitetura dos irmãos Nitsche, que dividem um escritório no centro, foi construída derrubando paredes. A dupla gosta de pensar em residências amplas, abertas, de janelões e vigas aparentes. Parecem obcecados em reduzir ao mínimo a quantidade de ambientes. “O Brasil vive essa mentalidade estranha, meio Casa-Grande & Senzala”, diz Lua. “É muito curiosa a divisão entre áreas de serviço e social. Você vê uns apartamentos de 60 metros quadrados com lavabo, três quartos, quarto de empregada, um monte de banheirinho e nenhuma preocupação em ter um bom pé-direito, uma janela generosa.”

Lua, 41 anos, e Pedro, 39, vivem o que defendem. Os dois moram em apartamentos parecidos, antigos e reformados para que sala, cozinha e quarto principal fossem uma só coisa. O de Lua, no centro de São Paulo, ocupa 180 metros quadrados num edifício da década de 1950. O de Pedro, na Vila Madalena, um predinho de três andares e 100 metros quadrados.

Um pouco inspirados na mesona de concreto que havia na casa dos pais, cada um desenhou sua própria versão. Lua fixou uma viga de metal em duas colunas de concreto. Encimou o metal com um tampo de madeira teca que toma quase toda a extensão da cozinha. Pedro imaginou um balcão que congregasse área de serviço, mesa de jantar e cozinha. A pia e o fogão dividem espaço com pratos e talheres.

Nas paredes, Lua pregou uma porção de artes. Pedro, não. Ele prefere apoiar. “Gosto de poder mudar de lugar”, diz ele. Na casa da arquiteta, as duas obras mais atraentes foram presentes dos pais: há uma chapa de metal preto que sugere uma pichação. O trabalho faz parte da série Pincelada, de Marcello Nitsche. (O apartamento de Pedro exibe outro exemplar, disposto na vertical, de cor vermelha). Na sala, Lua fixou uma tábua giratória, pintada de azul, chamada Hélices, de Carmela Gross.

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