Futuro do Pretérito

Futuro do Pretérito

A Vila Madalena muda de perfil rapidamente, com comércios e construções antigas e modernas convivendo lado a lado, mas mantém o charme e a vocação de caleidoscópio de tendências.

O clima de cidade do interior ainda resiste, apesar do surgimento de prédios assinados por arquitetos renomados e lojas com design moderno onde antes existiam sobradinhos e casinhas com alpendre. É visível a mudança de perfil que a Vila Madalena viveu nos últimos anos. Mas o bairro da zona oeste de São Paulo continua com um ar provinciano, onde comerciantes à moda antiga convivem em paz com produtoras de vídeo, galerias de arte, restaurantes estrelados. Se os sobradinhos não mais dominam a cena, os moradores – novos e antigos – se esforçam para manter o clima amigável. E é essa convivência que transformou o bairro em um dos mais charmosos da cidade. “É um lugar informal, democrático, jovem, que valoriza a qualidade de vida”, diz o chef Ivan Ralston, que, em julho deste ano, inaugurou o já concorrido restaurante Tuju, na Fradique Coutinho. “Quem anda por aqui não para de achar lugares diferentes, com a vocação natural do bairro, que é essa boemia criativa”, diz Roberto Davidowicz, que junto com a mulher, Raquel, abriu, há 18 anos, a UMA, a primeira loja-conceito de uma grife de moda na Vila Madalena.

A boemia, por sinal, é uma característica marcante da Vila. Vários bares marcaram a memória de gerações, como o Empanadas, além da Mercearia São Pedro, ponto de encontro de escritores, jornalistas, músicos e artistas, na rua Rodésia, onde funciona desde 1968. Outro trecho de noitadas certas, é o corredor de bares da rua Aspicuelta. Se a noite animada atrai visitantes de todos os cantos, de dia as galerias de arte levam outro tipo de público. Confira a seguir uma seleção de endereços onde a Vila Madalena revela seus dois lados: o moderno e o antigo.

Rua-Gonçalo-Afonso,-nos-anos-1980

Costura no Capricho

Desde 1969

Imaculada Aparecida Alves era casada com o sapateiro José Brocanelli, um dos mais requisitados da Vila Madalena, que calçava sob encomenda sobrenomes fortes da capital paulista. Costureira de mão certeira, era procurada pelas clientes mais exigentes da loja de vestidos de festa La Bimba, em Pinheiros, onde trabalhou por nove anos. Após uma viagem para rever a família em Minas Gerais, há 45 anos, a mineira de São Sebastião do Paraíso – que, na infância, sonhava ser costureira – teve a ideia de trazer para São Paulo um negócio novo que viu por lá: uma loja de consertos de roupas. “Não existia oficina de ajustes de roupas, costura de barras e troca de ziperes aqui. Agora tem uma em cada esquina, até nos shoppings. Mas eu fui a primeira na Vila Madalena”, ressalta Imá. Viúva há 24 anos, ela segue atendendo seu público fiel, que vem dos bairros mais nobres de São Paulo atrás da qualidade de sua costura, na mesma garagem que transformou em oficina, no número 117 da rua Simpatia. Sempre com a ajuda das irmãs – primeiro com Ivanete e atualmente com Ivanice. “Já estou atendendo a terceira geração das famílias das minhas primeiras clientes”, conta.

PAPO CABEÇA

Desde 2014

Filha da publisher da revista Cult, Fernanda Paola propôs à mãe, a editora Daysi Bregantini, levar as discussões das páginas impressas para a vida real. Assim nasceu, em 2012, o Espaço Cult, um centro cultural com o respaldo da publicação com 17 anos de estrada. Um lugar para quem gosta de trocar ideias sobre literatura, filosofia, design, arte e música, em encontros com nomes gabaritados de cada área.
Ocupando inicialmente uma casa na rua Inácio Pereira da Rocha, o negócio deu tão certo que, este ano, Fernanda saiu em voo solo e expandiu para uma sede maior, na rua Aspicuelta. Além dos cursos e workshops, o ambiente amplo, de decoração despojada, promove também lançamentos de livros e CDs, palestras e exposições. Na cobertura, com terraço ao ar livre sob a copa de uma árvore, as discussões culturais seguem no café Bergamota, com menu da chef Tatu Damberg. “A Vila Madalena combina com um espaço de troca de informações, com foco artístico e cultural, do jeito que eu imaginava. Não fazia sentido eu abrir o Espaço Cult em outro lugar da cidade”, diz Fernanda.

BARBA, CABELO E BIGODE

Desde 1954

Quando Joaquim Gonçalves Pereira chegou à Vila Madalena, 60 anos atrás, as ruas eram de terra e o mato se espalhava por lugares onde hoje estão bares e lojas badaladas. Natural de Parada do Coa, região de Beira Alta, Portugal, Joaquim veio para o Brasil a convite do tio, José Joaquim Gonçalves, que havia chegado alguns anos antes e montado sua barbearia na rua Horácio Lane, quase esquina com a Cardeal Arcoverde. “Naquela época, a Cardeal e a Teodoro eram as únicas ruas de paralelepípedo, por onde circulavam os bondes”, lembra Joaquim, 78 anos. Já familiarizado com o ofício, que começou a exercer ainda garoto em Portugal, ele logo se juntou ao tio na barbearia. E lá ficou, até hoje, fazendo barba e cabelo para clientes fiéis. Se a Vila Madalena mudou drasticamente nesses últimos 60 anos, a barbearia do seu Joaquim continua a mesma. Quem entra no cubículo de cerca de 12 metros quadrados com vista para o cemitério tem a sensação de voltar no tempo. A cadeira de barbear é uma relíquia de 1951, os outros poucos móveis (gaveteiros e prateleiras de madeira) estão lá desde a estreia de Joaquim. Tem até uma escarradeira desativada, um equipamento que era obrigatório nos anos 50 e depois caiu em desuso. Avesso à tecnologia, o barbeiro não usa celular e se recusa a marcar hora para atendimento. “As pessoas já me conhecem. Tenho clientes que atravessam a cidade para aparar a barba comigo”, diz, enquanto manipula uma de suas navalhas.

REQUINTE 100% NACIONAL

Desde 2013

O lugar lembra o interior da França: um charmoso sobrado de esquina, sem letreiro na fachada, escondido na rua Aspicuelta. Lá dentro, queijos de sabores exuberantes para degustação com vinhos, cervejas e pães artesanais. Só que tudo made in Brazil.

Fernando Oliveira, um professor de sociologia que largou a universidade para se dedicar integralmente à pesquisa de pequenos produtores de laticínios Brasil afora, transformou o antigo ateliê de caixas decorativas da mulher e da sogra em um templo de sabores 100% nacionais. “Eu e minha mãe trabalhávamos aqui havia 14 anos. Até que, em 2013, resolvemos materializar em um espaço físico o projeto do Fernando, que há sete anos vendia pela internet queijos de pequenos produtores da Serra da Canastra, em Minas Gerais. Percebemos que era o momento de ter um espaço onde se pudesse degustar e fazer cursos sobre a produção de queijo artesanal brasileira”, conta Luciana, que é casada com Oliveira há 23 anos. Em um ano, A Queijaria virou referência, com oferta de 140 tipos de queijos, de 50 produtores de dez estados do país. Aos sábados, nada mais gostoso do que sentar em uma das poucas mesinhas que arrumam na calçada e divertir o paladar. E sem ter de viajar para longe. Um passeio de sabores ali mesmo, numa despretensiosa esquina.

MÃOS DE RESTAURADOR

Desde 1994

Ernesto Machado veio do Paraná para tentar a sorte em São Paulo no final dos anos 60, antes de completar 20 anos. Aqui logo se instalou na Vila Madalena, na época um bairro residencial, de classe média, com muitas oficinas e pequenos ateliês. Casou, conseguiu comprar uma casa na rua Simpatia e criou os três filhos com uma funilaria de carros antigos. Com espírito empreendedor, em 1998, seu Ernesto fez um curso técnico de manutenção de eletrodomésticos e, de cliente em cliente, viu potencial em um nicho muito específico no mercado de refrigeração: o restauro de geladeiras antigas. “Juntei a minha paixão por restauração com a emoção de ver a reação dos clientes quando entregava aquela geladeira rara, que pertenceu à mãe da pessoa ou à esposa que faleceu”, lembra.

Mas o negócio expandiu quando virou moda combinar peças vintage com mobiliário moderno. “Depois que uma revista publicou uma reportagem sobre a minha oficina, passei a ser muito procurado por arquitetos, decoradores e gente que quer ter em casa peças diferentes. É gente do Brasil todo e até do exterior”, conta. Hoje ele trabalha com os dois filhos, Luciano e Guilherme, e segue na mesma oficina da rua Simpatia, que aluga desde 1994. Com tanta demanda, o lugar funciona mais como um show room: seu Ernesto mantém um estoque com mais de 40 geladeiras de diversas épocas em um galpão no Jardim Bonfiglioli.

GASTRONOMIA SEM FRESCURA

DESDE 2014

A proposta era fazer gastronomia autoral em um ambiente que não intimidasse: com a cozinha toda aberta para o salão, cercado de hortas por todos os lados. Quando o chef Ivan Ralston, que estudou em Barcelona, voltou para o Brasil, ele sabia exatamente como faria seu primeiro restaurante. Filho de Liane Ralston e Roberto Bielawski, donos do Ráscal, ele já conhecia bem os diferentes públicos em cada canto de São Paulo. Não tinha dúvida de que a Vila Madalena era a escolha certa para o tipo de ambiente que queria: informal e descontraído, com qualidade. Encontrou o lugar perfeito na rua Fradique Coutinho, com quintal ao ar livre, coisa rara em São Paulo. “Aqui tenho o tamanho que eu precisava para montar um restaurante com horta, com a cara que eu imaginava”, ressalta Ralston, que convocou o pessoal do Vapor 324 para executar a arquitetura.

A entrada do Tuju – nome de um pássaro da Mata Atlântica – não é a de um restaurante convencional: no jardim, só verduras; e, na vitrine, os cozinheiros a toda. “Queria que a cozinha fosse a fachada”, conta. Lá dentro, três ambientes que valem o programa, incluindo o terraço ao ar livre, delícia para bate-papos entre drinques e quitutes da horta. Só que é bom reservar. Embora inaugurado em julho deste ano, o restaurante já virou ponto de encontro na Vila.

BOTECO COM HISTÓRIA

Desde 2000

Quem frequenta a Vila Madalena sabe que a fama tem fundamento: o lugar certo para se comer um filé à Oswaldo Aranha em São Paulo é o São Cristovão. Aquele misto de bar, restaurante e pub, na rua Aspicuelta, quase esquina com a Fradique Coutinho, que tem todas as paredes decoradas até o teto com imagens de momentos e ídolos memoráveis do futebol brasileiro.

“Passei um ano em Londres e percebi que lá os pubs homenageavam os heróis nacionais. Quando voltei para São Paulo e decidi abrir o restaurante, pensei: quem são os nossos heróis? Nossos guerreiros brasileiros são os craques do futebol. Aí comecei a recortar e copiar imagens de jornais e revistas e pendurar nas paredes”, conta Leonardo Silva Prado, dono do lugar que, ao longo dos últimos 14 anos, funciona como um ponto turístico da Vila Madalena, tamanho o prestígio que conquistou. Pela decoração, pelo chope bem tirado e pelos petiscos, premiados em festivais e publicações especializadas em comida de boteco. Para o verão, o proprietário – que é natural de Goiânia e homenageou com o nome do bar um tio torcedor do time carioca São Cristovão – avisa: prepara um festival de runs selecionados em viagens ao Caribe e pela América do Sul.

SOMBRA E ÁGUA FRESCA

Desde 2006

Com uma enorme área ao ar livre, à sombra de três frondosas mangueiras e com uma pequena queda-d’água, o bar e restaurante Pé de Manga tornou-se uma espécie de refúgio bucólico em plena Vila Madalena. Em frente a uma charmosa pracinha, o local tem o chef peruano Julio Morillo no comando da cozinha e aposta em um cardápio variado. “Temos desde os tradicionais petiscos, como sanduíches e brusquetas, até pratos mais elaborados, como diferentes risotos”, diz Gustavo Barakat (de camisa social), sócio da casa ao lado de Wilson Pimentel (de pólo listrada). A carta de bebidas chama a atenção pela variedade de caipiroskas, feitas com frutas como umbu, carambola e jabuticaba. Gustavo frequenta a Vila Madalena desde a infância. “Conheço muito bem o bairro. Meus pais moravam em uma casa pertinho do Pé de Manga quando eu era criança.”

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