Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho

Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho

DEZ FOTOS/ UMA HISTÓRIA

O Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho é o estádio mais bonito do país, patrimônio público que abriu as portas há 74 anos. Foi palco de jogos da traumática copa de 1950, de uma centena de partidas do Rei Pelé e do Pan-Americano de 1963. Não é à toa que a praça em frente a ele leva o nome de Charles Miller, fundador do esporte no Brasil.

1/ PONTAPÉ INICIAL

Foi no sábado morno e luminoso de 27 de julho de 1940. Passava das 15h30 quando o alto-falante no centro do gramado anunciou a chegada do presidente Getúlio Vargas, do prefeito Prestes Maia e do interventor Adhemar de Barros. Cerca de 50 mil pessoas foram ver a inauguração do estádio. O governo ajudou baixando as tarifas de trem, principal meio de transporte do período. A festa começou com um desfile de 15 mil representantes de entidades esportivas da capital, do interior, de outros estados e países. Iniciada pelos argentinos, a procissão culminou com a soltura de milhares de pombos-correio. Um corredor irrompeu em seguida com a bandeira nacional. Ela foi oferecida pelo Fluminense e trazida do Rio de Janeiro em uma corrida de revezamento. Sob gritos de “Brasil, Brasil, Brasil”, acendeu-se uma tocha olímpica. O grand finale coube ao corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, dirigido pela bailarina russa Maria Olenewa. No programa, “Les sylphides”, de Chopin, e o “Danúbio azul”, de Strauss.

2/ O PROJETO

O Rio de Janeiro tem o primeiro estádio do país, o do Fluminense, inaugurado em 1919. Pois São Paulo terá o maior. Na década de 1920, esse desejo começou a aflorar entre as classes dominantes paulistas (o Maracanã é de 1950). Doada pela Companhia City em 1926, uma área de 50 mil metros quadrados no vale do Pacaembu, então um descampado, foi o local escolhido. O bairro havia sido urbanizado por essa empresa, que queria valorizá-lo, resultando na configuração acima, de 1969.

O projeto ficou a cargo do escritório do arquiteto Ramos de Azevedo, que na época tinha o nome de Severo & Villares e era responsável pelas principais obras da cidade, a exemplo do Theatro Municipal. Estava previsto para um terreno de 75 mil quadrados, o que levou a prefeitura a comprar uma área anexa – a Cia. City cedeu mais um pedaço. Orçada em 4.400 contos, a construção começou em 1936, no final do mandato do prefeito Fabio Prado, e envolveu 4 mil operários.

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3/ O MARECHAL DA VITÓRIA

“Que sorte a nossa, vamos jogar com a cor do manto de nossa padroeira.” Foi assim que Paulo Machado de Carvalho, o chefe da delegação brasileira na Copa de 1958, informou aos jogadores que o uniforme da final seria o azul – a Suécia, a anfitriã, havia ficado com o amarelo. Para acalmar os supersticiosos, tinha em mãos uma estampa de Nossa Senhora Aparecida. Ajudou? Não se sabe. Mas também não atrapalhou: goleamos os suecos por 5 a 2. Carvalho chefiou também a equipe que faturou o Mundial do Chile, em 1962. Voltou com o apelido de Marechal da Vitória. Um ano antes, por ordem do prefeito Prestes Maia, passou a batizar o estádio do Pacaembu. Formado pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco, foi dono da Rede Record de Televisão e da Rádio Jovem Pan. A carreira como dirigente esportivo incluiu a presidência do São Paulo Futebol Clube e a vice-presidência da Federação Paulista de Futebol (FPF). Morreu em 7 de março de 1992, de insuficiência respiratória. Tinha 90 anos.

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4/ O REI DO FUTEBOL

Pelé disputou 144 jogos no Pacaembu com a camisa do Santos. Foram 77 vitórias, 36 empates e 31 derrotas. Número de gols: 113. O primeiro foi em 1957, contra o São Paulo, que perdeu por 3 a 1. Em 20 de abril de 1974, numa goleada de 4 a 0 contra o Palmeiras, ele balançou as redes pela última vez. Aos 6 minutos do segundo tempo, recebeu um passe do ponta-direita Fernandinho e correu para a grande área. “Sozinho, diante de um goleiro muito nervoso com a estreia, Pelé deu um leve toque para levantar a bola e chutou suavemente o canto direito”, noticiou no dia seguinte o jornal Estado de S. Paulo. Em 1958, pouco antes de embarcar para a Copa da Suécia, da qual voltaria campeão, ele disputou um amistoso no Pacaembu pela seleção contra a Bulgária. Placar: 3 a 1 para o Brasil. Na mesma época, Pelé defendeu ali as cores do Brasil numa partida informal contra o Corinthians, que perdeu de 5 a 0. Na foto acima, ele se recupera de um pontapé de Ari Clemente, do timão. Oito anos antes, a mesma arena havia sediado seis jogos da primeira Copa no Brasil, aquela que perdemos para o Uruguai na final.

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5/ JOGOS PAN- AMERICANOS

Em 1963, os Jogos Pan-Americanos foram disputados pela primeira vez no Brasil. São Paulo foi a cidade escolhida para sediar a competição e o Estádio Municipal abrigou as competições de atletismo, saltos ornamentais, natação e boxe. Por sua privilegiada localização e estrutura, foi escolhido como o palco das cerimônias de abertura e encerramento do evento. Os atletas ficaram hospedados na recém inaugurada Vila Pan-Americana, na Cidade Universitária – rebatizado de Crusp, o complexo segue de pé e serve de moradia para alunos da Universidade de São Paulo. Vinte e um países participaram da competição. Assim como na edição de dois anos antes, em Chicago, os Estados Unidos embolsaram a maioria das medalhas: 106 de ouro, 57 de prata e 37 de bronze. Com 14 medalhas de ouro, 20 de prata e 18 de bronze, o Brasil ficou em segundo lugar. Hoje, o Centro Esportivo Pacaembu é muito procurado especialmente por sua piscina que, assim como o ginásio poliesportivo, as quadras e a pista de cooper, é aberta ao público do bairro. O acesso à secretaria se dá pela rua Capivari, portão 23.

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6/ A CONCHA ACÚSTICA

Em novembro de 1968, o prefeito Faria Lima solicitou à Secretaria de Obras um projeto de ampliação do estádio, no qual cabiam 70 mil pessoas, parte delas em pé. Empossado prefeito em abril do ano seguinte, Paulo Maluf encomendou um plano, que lhe chegou às mãos em 24 de abril. Gostou das mudanças, mas não as aprovou de imediato – estava gripado, noticiou-se à época, e só poderia estudá-las depois. A segunda reforma do Pacaembu começou naquele ano (a outra foi em 1960). O gramado ganhou sistema de drenagem e os refletores foram substituídos. Palco de apresentações artísticas, a Concha Acústica (foto à esquerda) foi posta abaixo para dar lugar ao setor de arquibancadas chamado Tobogã (à direita), o que ampliou a capacidade para 80 mil pessoas (hoje a arena comporta quase 40 mil espectadores). A novidade sepultou de vez uma atividade econômica realizada num morro à esquerda da Concha Acústica, conhecido como Pão Duro. Lá, mediante uma quantidade irrisória, dava para assistir a qualquer jogo de longe. A cobrança, claro, não tinha nada de legal.

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7/ PRAÇA CHARLES MILLER

Em 1954, a praça em frente ao estádio foi batizada com o nome de Charles Miller, morto um ano antes, aos 78 anos. Fazia todo o sentido homenagear o paulistano que em fevereiro de 1894, vindo da Inglaterra, trouxe para o Brasil um par de chuteiras, duas bolas, uma bomba para enchê-las e um livro de regras. Para muita gente, foi o pontapé inicial do esporte no Brasil. A praça atualmente abriga uma das feiras livres mais movimentadas de São Paulo. Ela é montada sempre às terças, quintas, sextas e sábados, pela manhã, e 83 comerciantes têm autorização da prefeitura para dar expediente por ali. Algumas barracas são montadas desde os anos 1970. Há registro, porém, de comerciantes trabalhando na área desde a década anterior, conforme a foto acima, de 1965.

8/ ESPORTE FINO

Para quem assiste a um jogo hoje sem camisa e de chinelos, parece impensável: durante muitos anos, só se entrava no Estádio do Pacaembu de camisa social, chapéu e gravata ou suspensório. Alguns assistiam às partidas de terno, como mostra a imagem acima, feita pelo fotógrafo Thomaz Farkas em 1943. As crianças iam de bermuda e as mulheres, com vestidos que desciam até depois dos joelhos.

9/ É GOL

A bola começou a rolar no dia seguinte à inauguração. No dia 28 de julho de 1940, o Palestra Itália enfrentou o Coritiba às 14 horas. A partida terminou em 6 a 2 para o Palestra, como então se chamava o Palmeiras. Era o Torneio Cidade de São Paulo, criado para homenagear a nova arena. No mesmo dia, o Corinthians jogou contra o Atlético Mineiro e venceu por 4 a 2. Campeão paulista em 1939, o timão levou a pior na final, disputada contra o alviverde. Placar: 2 a 1. O Pacaembu também foi palco de outra conquista suada para o Palestra, a do Campeonato Paulista de 1959 (foto). Foram necessárias três partidas extras em janeiro do ano seguinte, uma vez que o verdão e o Santos acabaram o torneio empatados. E foi em empate que terminaram os dois primeiros jogos. Com um gol de Pelé para o Santos aos 14 minutos, a terceira partida acabou em 2 a 1 para o Palestra. Dada sua longa duração, o torneio passou a ser chamado de supercampeonato.

10/ A MECA DO TIMÃO

Aos poucos, o Pacaembu virou a casa informal do Corinthians, time que joga com maior frequência no local, onde protagonizou lances históricos. Em setembro de 1978, serviu de palco para a estreia de Biro-Biro com a camisa do Corinthians, numa partida contra o Paulista. Recifense, mirrado, com cabelos bicolores e enroladinhos, o jogador chamou a atenção de imediato. Chegou como meia, virou volante e passou a atuar nas pontas direita e esquerda. Em 589 jogos, fez 75 gols pelo timão. Ao lado de craques como Sócrates e Casagrande, é ate hoje um dos grandes ídolos da torcida. Neste ano, o Pacaembu perde o posto para o Itaquerão, estádio oficial do Corinthians, programado para receber a primeira partida da Copa.

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