Eduardo Longo

Eduardo Longo

CASA/ ONTEM

Da convivência com o avô em um casarão projetado por Ramos de Azevedo até a criação da ousada Casa-Bola, nos anos 70, o arquiteto paulistano Eduardo Longo Colecionou rabiscos, partidas de futebol e corridas de bicicleta.

Na primeira infância, até os 7 anos, Eduardo Longo jogava muito mal futebol, mas montava bem a cavalo. Gostava de correr pela grama e brincar com os colonos na fazenda de café do avô. Não tinha apreço pela leitura e não sabia desenhar. O menino ainda teria uns 11 anos de caneladas, cavalices e café até ouvir de uma amiga, numa viagem à Europa: “Você, que gosta tanto de desenhar, Eduardo... Deveria ser arquiteto.”

“Eu não entendia o que era ser arquiteto”, diz ele. “Eu só sabia que desenhava mal pra burro. Mas ficava lá, tentando, fazendo meus esboços, meus quadrinhos, rabiscando gente no papel... ” Voltou ao Brasil, ingressou na Universidade Mackenzie, construiu casas, fez projetos e sucesso. Virou um exemplar bem particular dessa espécie que vive de imaginar coisas altas, largas, feias e bonitas, feitas de concreto e aço. Mas isso foi depois.
Aos 7 anos, em 1949, Eduardo Longo vivia numa fazenda em Valparaíso, a 560 quilômetros de São Paulo. Herdeira do italiano Geremia Lunardelli, “rei do café”, a família era endinheirada, com uma fartura de imóveis espalhados no interior, na capital e no litoral. Ao atingir idade escolar, Eduardo mudou-se com os pais para São Paulo. O avô residia num casarão de quarteirão todo na avenida Brigadeiro Luís Antônio. Para manter os filhos por perto, dividiu um terreno contíguo, na rua dos Ingleses, e ali construiu uma casa para cada um. Eduardo Longo ocupou, com os pais e irmãos, um sobrado amplo, de tijolinhos aparentes e três dormitórios, concebido pelo arquiteto Alfredo Becker. Ficou até os 18 anos, quando sairia para viagem à Europa.

“Essa casa de tijolos tinha um campinho de futebol. A gente montou um time, com uniforme e tudo. Eu era goleiro. Nos fins de semana, ficava muito na casa dos meus avós, quase colada à nossa. Um casarão feito pelo Ramos de Azevedo [1851-1928, principal arquiteto paulistano do início do século 20, responsável pela Pinacoteca e pelo Theatro Municipal]. Era um imóvel enorme, com uma capelinha dentro – que eu mal frequentava – e uma torrezinha – que devia ter aproveitado mais para brincar. Havia também um hall de entrada art déco, com um painel do John Graz [1891-1980].

A casa era organizada e sóbria. Tinha uma televisão no segundo andar, um trambolho. O jardim era lindo. Ali, com os primos, a gente andava de bicicleta em ralis, 12 horas de corrida em revezamento. Gostava mesmo desse lugar. Um dia meu avô morreu, a gente se mudou, venderam o imóvel e o derrubaram. Subiram um prédio horroroso.”

CASA/ HOJE

A Casa-Bola é uma abstração tornada realidade. Durante seis anos, de 1974 a 1979, Eduardo Longo subiu o imóvel no braço, com dois assistentes, em seu escritório residência na rua Amauri, em São Paulo. Utilizou todos os 8 metros de diâmetro que o terreno permitia. Tirou dali uma construção com 130 metros quadrados de piso.

Por fora, armou a esfera utilizando tubulações ocas de metal. Cobriu a casa com uma malha de ferro, estuque e argamassa armada. Por dentro, fez um apartamento de três suítes e três pavimentos, que na verdade são quase seis (há meios andares entre os andares). “No começo, queria poucos ambientes e paredes”, explica. “Depois, mudei de ideia. Queria mostrar a Casa-Bola como um projeto comerciável. Seriam diversas unidades, permitindo uma espécie de condomínio vertical com a sensação de viver numa casa isolada. Por isso, organizei o espaço como um apartamento tradicional e vim morar aqui.” Além da residência esférica onde vive, o arquiteto construiu para os pais a segunda e última Casa- Bola, no bairro do Morumbi, pintada de vermelho.
Na casa da rua Amauri, que foi aberta à visitação durante a 10ª Bienal de Arquitetura de São Paulo, há uma ampla sala de estar e uma saleta para jantar. A cozinha acopla um fogão de quatro bocas à parede, a pia é enorme e funda, uma mesinha de canto brota do piso e a geladeira na verdade é uma saleta refrigerada (o ar quente é despejado na área de serviço para secar as roupas). Parece um pequeno camarote numa embarcação. É pouquíssima a decoração: alguns espelhos, porta-retratos (fotos dos netos e dos filhos) e um único quadro (um original de David Hockney).

O quarto dele é pequeno. Guarda-roupa, uma TV, janela e claraboia, um gaveteiro onde descansa a gaita que ele toca na banheira. “Inventei essa gaita cortando uma ao meio, e um suporte com um elástico que eu prendo ao molar. Daí posso ficar tocando por horas e horas, com as mãos livres, tomando banho”. O banheiro é um orgulho. “Essa casa foi toda um exercício de descobrir como as coisas funcionam e o que é essencial”, diz. No lado de fora, um escorregador amarelo circula de cima a baixo. “Meus filhos brincaram um pouco, eu mesmo já desci, mas a molecada da rua é que vinha e descia a madrugada toda. Dava uns sustos, mas achava engraçado.”

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