É Dia de Feira

É Dia de Feira

Uma das mais tradicionais de São Paulo, a feira do Pacaembu é espaçosa, não atrapalha o trânsito, tem estacionamento à vontade e é rodeada por árvores. Como se isso não bastasse, tem produtos da melhor qualidade e personagens cheios de boas histórias.

Quatro horas da madrugada, faça frio ou faça calor, chova ou não, Pedro Augusto Pipo começa a montar sua barraca. Barraca é o modo de dizer. São 25 metros de comprimento de cavaletes e pranchas de madeira debaixo de um toldo de lona, que vão receber, num desenho lógico, 75 tipos de frutas.

A Frutaria do Pedrinho é a banca que está mais perto do estádio Paulo Machado de Carvalho, na praça Charles Miller, onde todas as terças, quintas, sextas e sábados arma-se a Feira do Pacaembu, uma das mais charmosas de São Paulo. Pedrinho, como é conhecido na praça, mora na Casa Verde, o bairro que virou samba de Adoniran Barbosa. “Silêncio, é madrugada/No Morro da Casa Verde/A raça dorme em paz.”

Ele ocupa aquele espaço há 20 anos. Não para quieto. Atende um, dá o troco para o outro, brinca com os fregueses, sabe o gosto de cada um. Na primeira manhã que passei na feira, garoava fino e fazia frio. Pedrinho atendia o celular a todo momento.

– Já está chegando na sua porta!

“Delivery” é a palavra de ordem na Feira do Pacaembu, e Pedrinho explica:

– Dia assim, frio e chuvoso, ninguém quer sair de casa. Liga pra mim que eu resolvo.

Tempos modernos de uma feira que vem mudando desde que começou a funcionar, bem no início dos anos 70.

A Feira do Pacaembu é especial. Espaçosa, não atrapalha o trânsito, tem estacionamento à vontade e é rodeada de árvores, onde maritacas, pombos e sabiás disputam um galho para, no final da feira, se esbaldarem com o que os feirantes deixaram escapar.

O movimento da montagem das barracas começa de madrugada ainda, mas os fregueses não chegam tão cedo como em outros tempos. Os primeiros começam a aparecer quando o sol já está firme. Cedinho, quem está por lá, firme e forte, é a turma da caminhada, dando voltas na praça, muitas vezes entre os corredores largos da feira, entre frutas, legumes, verduras, peixes, ovos.

Cada barraca tem uma história. Ninguém conhece o Genival José da Silva pelo nome, mas se você pergunta pelo Sapateiro todos sabem quem é. Ele hoje mora em São Miguel Paulista e bate ponto toda semana na Feira do Pacaembu há 15 anos. Veio de longe, lá de Caruaru, agreste pernambucano, onde trabalhava como sapateiro, por isso o apelido. Hoje vende temperos. Curry, cominho, linhaça dourada, funcho, sálvia, orégano, cardamomo e um que se chama simplesmente Tempero Ana Maria. Tudo embaladinho em saquinhos plásticos e com o nome etiquetado. Sapateiro, feirante e forrozeiro, anima o pedaço, enquanto descasca mandioca sem parar, outra atração da sua barraca.

LAGOSTAS, POLVOS, CAMARÕES

A Feira do Pacaembu já foi maior, ocupou toda a praça nos anos 70 e 80. O número de barracas diminuiu, mas nunca perdeu a variedade. O que acabou foram aquelas que vendiam roupas e os pequenos armazéns, com enlatados e produtos de limpeza.

Tudo aqui é de primeira. A banca de peixes do Oscar Itinochi é uma atração. Mesmo quem não vai levar um pescado pra casa hoje dá uma paradinha para admirar, na vitrine coberta de gelo, vistosas lagostas, polvos e camarões sete-barbas. A Cleide e a Regina ficam com um olho nos clientes e outro nos peixes. Tem anchova, tem pescada, truta, corvina, sardinha, pra todo gosto. A inglesa Ivone Sponge, freguesa há 36 anos dos Itinochi, começa a escolher os seus. Regina, enquanto serve dona Ivone, já está dando dicas a uma outra freguesa de como preparar um Saint Peter. Bem-humorada, pra ela o mar está sempre pra peixe.

No Pacaembu, a feira é moderna. Já foi o tempo em que só se aceitava dinheiro vivo. Hoje a maquininha de cartão de crédito não para de funcionar. E, muitas vezes, as bancas funcionam até mesmo como banco. O moçambicano Domingos, o rei da cebola, se dispõe a trocar um cheque de R$ 250 para um antigo cliente, sem o menor problema. Dinheiro pra cá, cebola pra lá, quando vê, o Kenji, cheio de sacolas e bom humor, já está escolhendo as cebolas mais graúdas. Domingos trabalha no Pacaembu desde 1981 e tem uma coleção de velhos amigos. Mostra que hoje vende também cereais, direito que conquistou junto à prefeitura quando viu os pequenos armazéns da feira desaparecerem.

EM FAMÍLIA

Ninguém está na Feira do Pacaembu por acaso. O negócio vem do avô, passa para o filho, para o neto. É o caso do verdureiro Paulo Sergio Rodrigues, filho de português. O avô dele começou no negócio em 1948. Quase todos na feira tem um apelido no diminutivo. Paulinho aponta um jovem que está experimentando uma nectarina na barraca da frente e diz: “Com os fregueses é a mesma coisa. Aquele ali vinha na feira no colo da mãe”.

O jovem é Isaias Sznifer, que hoje veio apresentar a feira para a namorada e o filho dela. Confirma que vem sempre, desde pequenininho. Ele conta que a mãe morava em Higienópolis e que a feira continua sendo o programa de todos os sábados.

A Feira do Pacaembu é cheia de histórias. Uma delas é a do Orides Santista, o Santista da água de coco. Começou na feira menino, vendendo limão de mão em mão. Um dia brigou com um fiscal de rolar no chão. Foram parar na delegacia. O delegado – da paz – aconselhou o fiscal a oferecer uma barraca ao vendedor de limões para pôr fim às brigas. E convenceu. O fiscal saiu dali, pediu ao Santista para arrumar todos os documentos exigidos e desde 1986 ele tem uma barraca de coco gelado e água de coco em garrafinha. O sonho dele é fazer sucos naturais de fruta, mas ainda não conseguiu convencer a prefeitura que o seu sonho é viável.

Quando dá 10, 11 horas a feira ferve. Agora, com o Museu do Futebol pertinho, o movimento aumentou ainda mais. Vendedores aumentam o tom da voz oferecendo o que há de melhor. Em poucos minutos, o futebol entra em campo e você fica sabendo quem é corintiano, quem é são-paulino, quem é palmeirense.

O negócio do corintiano Mauricio Girasoli é ovo. Grandes, pequenos, jumbo, de codorna e até de pata que, segundo ele, são apreciados pelos esportistas. Mauricio sabe tudo sobre ovos. Os da sua barraca vêm de Botucatu e ele faz questão de mostrar a data da validade em cada caixa. Orgulhoso, mostra uma caixinha com ovos de 2 gemas, que ele conhece só de ver, pelo tamanho. “Onde você encontra ovos com 2 gemas? Só aqui!”

Nem o Fábio Luiz Brandão sabe explicar por que a banana na feira tem barraca exclusiva. Barraca de banana só vende banana. Prata, ouro, maçã, nanica, da terra. As bananas vistosas da sua barraca vêm do Vale do Ribeira e ele tem freguês que compra na sua mão há mais de duas décadas. Brinca que ali na sua barraca tudo é a preço de banana.

Ao lado do Fabio está o Sérgio, o das batatas. Há 20 anos no Pacaembu vendendo batatas, virou um expert. Se alguém pergunta pra que serve a batata de casca meio avermelhada, ele responde na lata: “É boa pra nhoque!”.

Quando o casal Nicolau e Valéria Calvano chegam à banca de flores, são recebidos de braços abertos pelo Jaime, há três décadas vendendo as mais diversas variedades no Pacaembu. Nicolau e Valéria são fregueses de anos. Valéria, animada com a beleza das flores, conta que quando quer um arranjo especial é só encomendar que seu Jaime prepara.

As flores da barraca do Jaime vêm de Holambra, de Atibaia, da Granja Viana e até de Minas Gerais. Orquídeas, antúrios, cravos, palmas e as flores do campo deixam sua banca a mais perfumada da feira. Ele, que trabalha com os filhos Rodrigo e Ronaldo, conta que a flor da moda agora é a astromélia, mas a que ainda mais vende é a romântica rosa. No domingo ele monta banca na Praça da Árvore e conta, admirado, que a flor hoje faz parte da vida das pessoas, independente da classe social.

É na Feira do Pacaembu que estão os melhores pastéis da cidade. O da Maria, o
do João e o do Zé, eleito sete vezes o melhor da cidade pela revista Veja São Paulo. Se no início eram apenas pastéis de carne, queijo e palmito, hoje a história mudou. Na banca do Zé tem pastel de carne-seca, peito de peru, chocolate, doce de leite, chester, prestígio, banana, Bauru, Romeu e Julieta, bacalhau, atum com queijo e, acredite, é na Feira do Pacaembu que você encontra pastel de estrogonofe, que vem recheado, inclusive, com batata palha.

A banca do Zé é um negócio de família. O pai, Zé Elias, e a mãe, Vera Lúcia, fazem os pastéis em casa e os levam fresquinhos para a feira. Quando o movimento é muito grande, ele tem de voltar em casa para buscar mais, conta Adriana Mori, a filha. Quando pergunto quantos pastéis ela vende por dia, diz que não sabe o número exato mas chuta: “Uns mil!”. E completa: “Os que mais vendem são os de carne e os de queijo”.

Aqui, o forte não é a xepa, aquela liquidação de fim de feira. Três da tarde, a praça está vazia. Só restam os pombos que brigam, disputando os farelos dos pastéis da Maria, do João e do Zé, deixados no chão pelos fregueses. Os melhores da cidade, sem a menor sombra de dúvida.

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