Casa Suspensa

Casa Suspensa

Morar em apartamento nunca foi exatamente uma tradição na família Affonso Ferreira. Por isso, há quatro anos, quando Cristiana Affonso Ferreira, a Kiki, filha de Guilherme e Claudia, procurava um canto pra chamar de seu, pintou a dúvida. “Nasci em Salvador, morei em casa a vida inteira e, para os meus pais, viver em apartamento era uma ideia inconcebível”, lembra ela. Como o marido, o empresário Leonardo Fernandes, viaja muito, a opção de um condomínio lhe pareceu mais segura. Ao visitar o prédio de uma tradicional rua do bairro Jardim Europa, foi fisgada, por incrível que pareça, pelo primeiro andar. “Quando vi que a varanda ficava na altura das árvores, senti como se estivesse em uma casa. Foi o que me conquistou”, conta ela, que também nunca gostou muito da ideia de ter de usar elevador.

Outra questão definitiva para a escolha do apartamento foi a proximidade do clube Pinheiros. Ela enxergou ali a chance de te um “quintal” perfeito. “Pra me adaptar, só morando perto de um clube”, diz. Mãe de três crianças, Felipe, 4 anos, Rafaela, 3, e Juliana, 6 meses, Kiki, que também frequenta o Harmonia, costuma dizer que o Pinheiros é mesmo uma extensão de sua casa. É no clube que ela, o marido e os filhos costumam tomar café da manhã nos fins de semana e praticar a rotina diária de esportes. Mais leve, é verdade. Depois do terceiro filho, Kiki resolveu mudar um pouco seus hábitos. Além de ter deixado o triathlon, esporte ao qual se dedicou na época em que trabalhava no mercado financeiro, ela reduziu a jornada de trabalho para passar mais tempo com as crianças. “Escolhi uma função operacional e fico só meio período”, explica. Formada em administração pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP), há cerca de dez anos Kiki começou a trabalhar na Teorema, gestora de fundos de ações criada pelo pai, e desde o início do ano é associada do Instituto de Cidadania Empresarial (ICE), que tem como objetivo estimular ações sociais entre empresas e empreendedores. “Posso dizer que hoje me sinto feliz e realizada. Com mais tempo, posso acompanhar meus filhos nas atividades e consigo aproveitar mais a casa.”

Com a agenda flexível, ela conseguiu colocar em prática a primeira grande reforma, ainda em andamento, da casa, que tem projeto original assinado pelas arquitetas Mariana e Camila Lellis. Na nova configuração, o quarto do casal ganhou um escritório e a salinha de brincar das crianças será adaptada – enquanto não fica pronta, parte da brinquedoteca foi transferida para a varanda, um dos lugares mais aconchegantes do apartamento. “Meus filhos almoçam na varanda quase todos os dias e é onde gosto de receber minhas amigas”, comenta. O espaço de cores sóbrias, com muita marcenaria e plantas, compõe o ambiente principal, integrado às salas de estar, de jantar e de TV, algo que ela fez questão de ter no projeto. “Queria bastante espaço para que todo mundo pudesse sentar de um jeito confortável, em caso de algum evento ou algo parecido.”

Ali, alguns móveis e objetos são estrategicamente posicionados, como a poltrona Charles Eames, que atende tanto a sala de TV quanto a de estar. Ou o quadro do artista norte-americano David Kracov, “emprestado” do irmão de Kiki. “Como ele foi morar fora, precisava guardar algumas coisas. Acabei ficando com a obra, que deu um colorido à sala. Estou tentando convencer ele a vender pra mim”, diz ela. Chamam a atenção também itens que fazem referência aos esportes, como uma foto antiga de uma maratona e uma mini escultura de bicicleta feita pelo artista israelense David Gerstein. “Não sou entendida de arte, mas preciso ter empatia com a obra. Se gosto, pesquiso, vou atrás. Acabei me interessando muito por esse artista, por exemplo.” Outros itens são carregados de história, como a coleção de enciclopédias Barsa e as pratarias, herdadas da avó, Silvia Amoroso Lima – filha do escritor e crítico literário Alceu Amoroso Lima. “Quando ela mudou de casa, chamou todos os netos e falou para cada um escolher o que quisesse”, conta. Algo parecido aconteceu com o marido. Quando a família vendeu uma fazenda na Serra da Bocaina, na divisa de São Paulo com o Rio de Janeiro, Leonardo, que é apaixonado por antiguidades, quis trazer dois objetos de valor afetivo, um relógio e um telefone do século 19. “Fiz até uma reforma no relógio, que estava meio caído”, conta ele, que também guarda com carinho especial uma lanterna a carvão. “Foi um presente do meu pai”, lembra. A lanterna está exposta em uma das várias prateleiras da casa, que guardam também álbuns de fotos – devidamente separados por temas – porta-retratos, caixinhas, livros...

Fica claro que a organização, na casa dos Affonso Ferreira Fernandes, dita as regras. “Dona Kiki é ordeira. A gente aprende com ela”, entrega uma das funcionárias. Há vários armários “disfarçados”, por exemplo, espalhados pela sala. “A minha demanda para as arquitetas era que não ficasse pesado, mas com bastante espaço para guardar as coisas. Acho que elas entenderam bem o espírito”, conta Kiki. Murais com recados também facilitam o dia a dia. “Tenho um na cozinha, com o cardápio da semana; outro no canto das crianças, com as atividades da escola. Como sou metódica, gosto de organização”, admite ela. Até o pequeno Felipe já aprendeu. No momento da foto da família, ele sopra no ouvido da mãe: “A mesa está ficando desarrumada!”. “Tem a quem puxar, né?”, comenta Kiki, aos risos.

Compartilhar