Agradável Torre de Babel

Agradável Torre de Babel

Executivos alemães, suecos, americanos, suíços e outros escolhem o Alto da Boa Vista para morar em busca de casas espaçosas, escolas internacionais, tranquilidade e segurança.

O que um alto executivo estrangeiro mais quer quando precisa se mudar com a família para o Brasil? Um lugar tranquilo, com casas espaçosas, arborizado, com temperatura amena, que ofereça serviços de primeira qualidade e, sobretudo, seja seguro. Em uma megalópole como São Paulo, destino para onde as maiores empresas internacionais que operam no país enviam executivos, é um desafio juntar todas essas qualidades em um mesmo polo residencial. Só que um bairro da cidade já nasceu com a vocação de atrair expatriados que buscam qualidade de vida e querem se proteger dos estresses dos grandes centros urbanos: o Alto da Boa Vista. Quando, no começo do século passado, duas chácaras naquele pedaço de Santo Amaro foram divididas em lotes para construção de casas para famílias de imigrantes alemães, o lugar já passou a ser considerado um oásis na zona sul da capital paulista. Não é à toa que até hoje o Alto atrai tantos estrangeiros, a maioria de origem alemã, em uma comunidade que tem nos europeus e seus descendentes cerca de 30% dos moradores locais.

“Eu me mudei para cá quando o Deutsche Bank transferiu sua sede para Santo Amaro”, conta o alemão Rolf Wiegel, 65 anos, que desde 1974 atua no Brasil – primeiro como diretor do banco alemão e atualmente como presidente do Club Transatlântico, um centro cultural e de negócios que reúne altos executivos em almoços e reuniões, em salas de convenções corporativas ou no restaurante de gastronomia alemã. Além de negócios, o clube alemão também incentiva a socialização dos expatriados: tem salões de festas, um teatro e um cinema – com exibição de filmes alemães aberta ao público – e até uma pista de Kegeln, uma modalidade de boliche tradicional da Alemanha. “Aqui almoçamos, falamos de negócios e também fazemos aniversários e casamentos. Não é um clube fechado a outras nacionalidades, mas é uma referência para o alemão que chega a São Paulo nesta região que é cercada por grandes empresas internacionais”, conta Wiegel. Quando veio transferido para o Brasil, há 40 anos, ele morava no centro – na época o lugar mais nobre da capital paulista –, mas após se casar com uma brasileira encontrou no Alto da Boa Vista um estilo de vida um pouco mais parecido com o de sua cidade natal, Boppard, na margem oeste do rio Reno, na Alemanha. Fora a convivência de compatriotas, o bairro mostrou-se um bom lugar para criar os filhos. “O que as pessoas mais buscam é segurança”, ressalta. Hoje, com os filhos adultos – o mais velho mora na Alemanha e o mais novo está nos Estados Unidos –, ele acredita que fez um bom negócio ao se mudar para o bairro, que oferece também opções de boas escolas.

Este é, aliás, um dos grandes atrativos do Alto da Boa Vista: há por ali escolas internacionais para todos os gostos. Desde a Escola Suíça, com uma educação mais humanística, até o primeiro colégio de filosofia Waldorf de São Paulo, o Rudolf Steiner, que tem sua bela sede no coração do bairro, passando pela americana Chapel e pelo colégio alemão Rumboldt – que hoje funciona há 15 minutos do Alto, em Interlagos. Essa oferta atraiu o executivo suíço Adrien Genier, 36 anos, quando o departamento de turismo de seu país resolveu abrir um escritório em São Paulo. “Morei por dois meses com minha mulher grávida e minha filha de 3 anos em um apartamento perto da avenida Paulista, onde fica o meu escritório. Foi um inferno. Não conseguíamos dormir com tanto barulho e poluição. Minha filha ficou nervosa e agitada. O comportamento dela só voltou ao normal depois que mudamos para uma casa no Alto da Boa Vista”, afirma. O diretor de marketing do Turismo da Suíça e a mulher, Vanessa Genier, 33 anos, logo conseguiram alugar uma casa com piscina em um dos arborizados condomínios que tomaram conta da região, especialmente a partir da segunda metade do anos 1990. “A dona do imóvel também é suíça, o que facilita toda a negociação. Em cada reforma que precisamos fazer na casa, ela concorda em contratar os melhores serviços. Foi o que aconteceu quando trocamos os eletrodomésticos da cozinha, por exemplo”, diz.

Genier enfrenta 1 hora de trânsito diariamente para ir de casa até o escritório na Paulista, mas acredita que vale a pena. “Depois de algum tempo irritado com o trânsito, passei a ir e voltar do trabalho de táxi, ouvindo música clássica. Acho que nesses dois anos de São Paulo já ouvi mais música clássica do que em toda minha vida, é um bom antídoto contra o estresse”, brinca, e acrescenta: “Compensa porque, à noite, durmo muito bem, em total silêncio. E minha família vive melhor. Tanto que minha mulher, que também já trabalhou na área de turismo e morou em vários países, não quer sair daqui”. O motivo? Nunca foi tão bem tratada. Genier conta que a esposa ficou impressionada com a generosidade dos brasileiros em relação às mulheres com crianças. “Dão lugar nas filas, oferecem o assento, carregam as compras. Na Europa, isso não acontece”, conta. O casal, com duas meninas pequenas – Melissa, 5 anos, e Elena, 18 meses –, logo arranjou um grupo de amigos com filhos depois que matriculou a mais velha em uma escola de educação infantil bilíngue. Hoje, Melissa estuda no Rumboldt. “Fizemos vários amigos estrangeiros e brasileiros. No Alto tem muito expatriado. Não há brasileiros no nosso condomínio, mas não queríamos ficar fechados na comunidade europeia. Adoramos os churrascos nos fins de semana.”

A-sueca-Maria-Alm-se-inspirou-na-tranquilidade-do-bairro-e-acabou-deixando-o-mundo-corporativo-para-criar-um-blog-de-alimentao-saudvel

NO MEIO DE UMA FLORESTA

É justamente essa receptividade, além da qualidade de vida, que atraiu também a sueca Maria Alm, 39 anos, para a região. Quando conheceu, em 2004, o brasileiro André Farber, 38 anos, vice-presidente de novos negócios do grupo Boticário, em um MBA na França, a executiva do Boston Consulting Group (BCG) pediu transferência do escritório de Estocolmo para São Paulo. “Fomos morar no Alto de Pinheiros, mas, quando fiquei grávida, não encontramos a segurança de uma casa em condomínio. Quando conheci o Alto da Boa Vista, adorei. Nosso jardim é cheio de árvores: sinto que estou no meio de uma floresta”, afirma. Maria conta que a mudança para o bairro foi tão inspiradora que, depois que nasceu, a filha Sara, há três anos, ela criou coragem para largar o mundo corporativo e abrir o próprio negócio: lançou um blog de receitas que auxiliam no emagrecimento, o Mais gordura menos caloria, e passou a ministrar workshops sobre culinária saudável. O último foi na Igreja Escandinava, que funciona como um centro cultural que reúne noruegueses, suecos e dinamarqueses que moram no bairro, com galeria de arte, cursos e festas. “Não frequento a igreja, mas lá eu encontro muita gente, não só dos países nórdicos. Tem uma mistura rica de nacionalidades”, conta a sueca, que transformou o terceiro andar de sua casa, “com vista para três árvores inspiradoras”, em um ateliê e passou a se aventurar também como artista plástica e ilustradora de livros infantis. “O bairro possibilita mais tranquilidade. Encontro aqui uma vida confortável: caminho com minha filha até o Parque Cordeiro; há uma feira a 100 metros da minha casa com ótimas opções de comida orgânica e, aqui perto, estão meus dois restaurantes favoritos, na Chácara Santo Antônio: o Maripili, que entrega em casa; e o Otávio Machado, com ambiente charmoso e quintal para as crianças curtirem, perfeito para o almoço no fim de semana”, conta.

Outro ponto de encontro aos sábados e domingos é o Mercado Municipal de Santo Amaro, na rua Padre José de Anchieta, uma das principais do Alto da Boa Vista. Além da oferta de cortes de carnes e especiarias, como em outros mercadões de São Paulo, há os destaques que atendem à demanda local, como os bons pães alemães e frios da mercearia Penedo. E, claro, o bolinho de bacalhau com cerveja do bar Capricornius, que atrai consumidores de todas as línguas. Torre de Babel muito bem organizada, com uma atuação forte da associação de moradores pela preservação do verde e do aquífero Bacia do Córrego do Cordeiro, que torna o clima ali 2 graus mais fresco do que no resto de São Paulo.

Rolf-Wiegel-é-presidente-do-Club-Transatlântico,-ponto-de-encontro-dos-alemães-da-região

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