De Santa Luiza, no interior baiano, a São Paulo, conheça a trajetória de Renot, o amigo de Jorge Amado e Di Cavalcanti que se tornou um dos maiores marchands do Brasil.

Dizem meus familiares que nasci de um susto provocado por Lampião. Era um tempo em que ele e seu bando saíam metendo pavor pelo sertão nordestino. Quando deram a notícia de que eles estavam chegando à cidade, minha mãe, apavorada, grávida de uns oitos meses de mim, fugiu de carroça com meu pai. Ficaram dois dias escondidos, até descobrirem que Lampião tinha desistido de passar por lá. O medo que minha mãe teve com o episódio foi tão grande que nasci um mês antes do previsto: 18 de outubro de 1932. Sou natural de Santa Luzia, hoje Santaluz, município de Queimadas, interior baiano, a 260 quilômetros de Salvador. Nome de batismo: Reinaldo Eliomar de Freitas Marques da Silva. Aquele 1932 ficou marcado no sertão como o ano de grande seca. Tive direito a apenas uma cuia com água para meu primeiro banho. Na hora, minha tia Lili jogou um anel de ouro dentro da cuia e disse: “Para o Reinaldo ser um menino rico”. Rose, minha secretaria brinca dizendo que deu certo, já que hoje sou rico... De saúde. Devo ser mesmo, porque me sinto muito bem. Sou o primogênito de cinco filhos. Meu pai era farmacêutico, minha mãe cuidava da casa. Fui filho único durante quatro anos. De Santa Luiza, lembro-me do trem que chegava semanalmente, trazendo água, mantimentos e notícias. Luz elétrica na cidade existia graças a um motor, que ficava ligado somente algumas horas, do entardecer até as nove da noite. Como toda casa de interior, a de minha infância tinha uma sala que dava para a rua, um corredor com quarto pra esquerda e pra direita, o comedor, a cozinha, o alpendre e, por fim, o quintal. Não havia muro, a porta de entrada dava no passeio. A casa era branca e azul, meio colonial. O telhado não tinha forro. Lembro de dormir ouvindo o barulho da chuva nas telhas. Com uns 8 anos, meu pai foi transferido para um laboratório em Maceió, Alagoas. Ficamos em Maceió uns cinco anos, até meu pai ser novamente transferido, dessa vez para Salvador. Minha adolescência foi como a de qualquer garoto. Logo me descobri bom comerciante. Negociava de tudo: galo de briga, isqueiro, joia. Frequentei muito a “esquina do pecado”, na cidade baixa, onde se reuniam os comerciantes da cidade, todos sexagenários. De início, fui recebido com reservas porque eu era um garoto disputando o espaço deles.
Aos 18 anos, um parente que era secretário da Agricultura me arrumou um emprego. Trabalhei um tempo como fiscal de exportação de cacau, em Ilhéus. Não deu muito certo. Naquela época, já fazia bom dinheiro vendendo joias para a alta sociedade baiana. Frequentava tanto as rodas que fui convidado a assinar uma coluna social no Jornal da Bahia. Um dia, acompanhei o empresário playboy Baby Pignatari numa recepção a Assis Chateaubriand. Graças a um amigo, Baby falou de mim para Chatô. No dia seguinte, comecei a trabalhar nos Diários Associados.
“Algo de grego” Fazia jornal, televisão e rádio ao mesmo tempo. Com isso, me aproximei do diretor dos Diários Associados para o Nordeste, Odorico Tavares, famoso colecionador de artes. Através dele, fiquei amigo de Jorge Amado. Vou dizer: jamais conheci pessoa mais generosa. Jorge era um sujeito extraordinário, vivia preocupado em ajudar os outros. Saía de casa de manhã com uma lista de amigos para os quais tinha de fazer algum serviço. Jorge escreveu sobre mim em vários livros. Em Dona Flor e Seus Dois Maridos, o personagem que vende as alianças para Vadinho se chama Renot, comerciante de joias e jornalista. No Bahia de Todos os Santos, ele fez um verbete intitulado “O Internacional Renot”, no qual me descreve pelo “riso modesto, a audácia, o topete”. E prossegue: “Em simpatia ninguém o vence. Esse baiano tem algo de grego, de cigano, de levantino, de paulista, mas suas raízes estão fincadas na Rua Carlos Gomes, seu padroeiro se chamou Manuel Quirino, mestre de arte e do viver baiano”. Ele se referia à galeria Manoel Querino (assim mesmo, com “o” e com “e”), que inaugurei em 1962. Conheci aí muitos artistas plásticos, entre os quais Cícero Dias, Manabu Mabe, Djanira, Heitor dos Prazeres. E também Di Cavalcanti, com quem fiz forte amizade. As circunstâncias foram engraçadas. Di adorava a Bahia, vivia em Salvador. Como Odorico e Jorge não tinham tempo nem disposição para acompanhar Di em suas andanças pela cidade, resolveram me colocar como seu cicerone. Foi quando ele rabiscou aquele desenho pendurado ali na parede: “Para Renot, meu anjo protetor em Salvador”. A galeria Manoel Querino foi importante no desenvolvimento cultural da Bahia e me deu muito renome. Isso tudo com apenas 30 anos de idade! No fim dos anos 1960, a tapeçaria andava em alta, então ingressei no negócio. Fui até Itaparica, principal reduto das tecelãs, e contratei 80 delas. Eu bolava os desenhos, elas teciam. Fiz muito dinheiro com aquilo, expus até no exterior. O jornalista Renot saía de cena para dar espaço ao tapeceiro e ao marchand. Tudo ia bem até o dia em que o ferryboat, que ainda hoje faz o trajeto Salvador–Ilha de Itaparica, foi inaugurado. Muitos advogados de porta de cadeia começaram a atravessar a baía para convencer as tapeceiras de que elas estavam sendo exploradas.
Obra-prima Não tardou para que eu recebesse uma ação de quinze delas pedindo 120 mil cruzeiros da época, o que era uma soma monstruosa. Meu advogado foi claro: “Renot, o negócio está feio. Em questões trabalhistas, os juízes sempre dão ganho de causa aos reclamantes. Você vai ter que vender tudo o que tem pra pagar essas mulheres”. A solução que me deu foi sumir de circulação enquanto ele resolvia as coisas. Deixei uma procuração com ele e me mandei para São Paulo. Cheguei aqui em meados dos anos 1970. Logo abri minha galeria, já neste endereço onde estou ainda hoje, na Rua Ministro Rocha Azevedo. Naquela época, existiam apenas cinco ou seis na cidade, entre elas a Cosme Velho, na Alameda Lorena, e a Documenta, no Padre João Manoel. Como na “esquina do pecado”, houve resistência por parte dos marchands, porque eu era um novato chegando para comer uma fatia do bolo. Com o tempo, venci o preconceito e virei um nome importante. Hoje, além de marchand famoso, sou a terceira casa de leilão mais antiga do Brasil. Lá se vão exatos 47 anos desde o primeiro que fiz, em Salvador. Dia desses, fazia as contas e vi que já havia realizado mais de 300 leilões. No saldo geral, minha vida foi muito positiva. Algumas dificuldades, claro, mas quem não as tem? Existe, contudo, um negócio. Todo mundo quer fazer o melhor de sua vida. Eu acho que ainda não fiz o melhor da minha. Passei a vida promovendo a arte dos outros e não tive tempo de me dedicar à minha pintura, que exercito desde a adolescência. Um dia pretendo realizar minha obra-prima.
  • Viver de Arte

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